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Miíases
ou Bicheiras
Dr.
Carmello Liberato Thadei
Recebem o nome acima
as doenças causadas pela invasão
do tecido cutâneo por larvas de insetos
dípteros, e em particular pelos chamados
dípteros miodários; Conforme a
biologia desses insetos, as respectivas afeções
que causam são de duas categorias:
1
- BIONTÓFAGAS - Larvas que invadem
os tecidos sãos, não necrosados,
inclusive a pele íntegra São essas
larvas chamadas de biontófagas, pois se
desenvolvem a custa do tecido vivo, e por conseguinte,
podendo comprometer o estado geral do homem ou
do animal por elas parasitado. São essas
larvas parasitas obrigatórias. Neste grupo
estão agrupadas as seguintes espécies
de insetos: Callitroga americana, Dermatobia hominis
e Oestrus ovis.
2
- NECROBIONTÓFAGAS - Larvas que invadem
exclusivamente tecidos já afetados por
necrose de outras causas .Estas nutrem-se exclusivamente
de tecido morto e porisso classificadas como necrobiontófagas;
Algumas delas não são prejudiciais,
pois limpam as feridas do material necrosado;
Neste grupo estão as moscas do gênero
Lucilia, que já foram inclusive utilizadas
como meio terapêutico nos primórdios
da medicina.
Raríssimamente
iniciam uma miíase, e com certa freqüência
são encontradas como saprófagas
de feridas ou cavidades infestadas por outras
espécies do grupo anterior. As principais
larvas deste grupo,pertencem aos seguintes gêneros
de moscas: Sarcophaga, Lucilia, Phaenicia, Calliphora,
Musca, Mucina e Fannia.
Sob
o ponto de vista médico, no Brasil, as
miíases podem ser:
1 - Cutâneas - Miíases Furunculosas,
produzidas pela Dermatobia homininis e pela Callitroga
americana; Lesões parecidas à de
furúnculos, daí o nome acima: Furunculosa.
2 - Cavitárias -
a) Miíases das feridas - Callitroga macellaria;
b) Nasomiíases - Miíases na região
do nariz;
c) Otomiíases - Localização
na região dos ouvidos:
d) Oculomiíases - Localizadas na região
orbital;
e) Cistomiíases - De localização
na bexiga;
f) Miíases intestinais - Quando sua localização
é nos intestinos.
As
miíases causadas por larvas de moscas necrobiontófagas
(que se desenvolvem unicamente em carne pútrida
ou em tecidos orgânicos fermentáveis)
tornam-se pseudoparasitas de lesões ou
tecidos doentes; Determinam o que se denomina
miíases secundárias, por ser necessária
a presença de material necrosado da ferida
ou cavidade, para seu desenvolvimento.
Nas
ulcerações, os danos em geral carecem
de importância, pois as larvas se limitam
a devovar os tecidos necrosados (mortos), não
invadindo as partes sadias, e por conseguinte
não ocasionando hemorragias. Estas foram
já em passado recente utilizadas na "limpeza"
de feridas, porque alimentando-se do tecido necrosado
que existe em toda ferida, aceleravam e facilitavam
o processo de cicatrização.
Cabe
ser observado que nas regiões onde ocorre
a Leishmaniose cutânea, como na região
amazônica, principalmente no Território
Indígena dos Ianomâmis, são
observados com muita freqüência as
naso-miíases, que nada mais são
que miíases secundárias de larvas
de moscas necrobiontófagas, que se instalam
na região do nariz, nas lesões causadas
primariamente pela Leishmania tegumentar.
As
Miíases intestinais são sem sombra
de dúvida, causadas pela ingestão
de ovos ou larvas, por meio de bebidas ou alimentos
por esses ovos ou vermes contaminados, e suas
conseqüências carecem em geral de gravidade,
produzindo algumas vezes apenas náuseas,
vômitos e diarréia. Não obstante,
a intensidade desses sintomas dependem da sensibilidade
do próprio enfermo, e do número
de larvas ingeridas. Segundo alguns autores, as
larvas de moscas são resistentes à
ação de certas substâncias,
inclusive à ação dos sucos
digestivos, podendo viver durante algum tempo
no tubo digestivo.
Para
o tratamento das bicheiras, quando as mesmas são
superficiais (cutâneas), basta aplicação
local de qualquer substância que seja ativa
contra os insetos em geral, e concomitantemente
não seja tóxica ao hospedei-ro,
para que as larvas ou morram ou simplesmente sejam
expulsas do local onde se encontram, e a cicatrização
subsequente do ferimento leve a bom termo a cura
da enfermidade.
Quando se dá o caso de serem as bicheiras
cavitárias, como é o caso das gasterofiloses
eqüinas, seu diagnóstico pelas técnicas
coprológicas usuais não é
possível, a não ser quando encontradas
larvas íntegras no bolo fecal desses hospedeiros,
o que pode ocorrer porém de forma fortuita,
e portan-to o simples exame de fezes com resultado
negativo não descarta sua ocorrência.
A presença de ovos íntegros ou as
larvas desses ovos já eclodidas, aderentes
aos pêlos dos membros anteriores e nos espaços
intermandibulares, é indicativo do parasitismo
pelos gasterophilus.
Durante
muito tempo, os únicos tratamentos conhecidos
para o combate à gasterofilose eqüina,
foi com a utilização de bissulfeto
de carbono administrado oralmente e contido em
cápsulas de gelatina.Devido sua toxidez,
caso administrado sem a devida técnica,
muitas vezes causava a morte do animal hospedeiro
quando do seu tratamento com essa substância
farmacêutica.
Com
a descoberta das substâncias organo-fosforadas,
os produtos sintéticos triclorfon e diclorvos,
mostraram-se eficazes contra todos os estágios
da fase larval desses insetos. O primeiro deles
tem sido o produto mais utilizado em nosso meio,
isola-damente ou em associação,
sob a forma de pasta, com benzimidazoles. Sen-do
pequena a margem de segurança, no que diz
respeito a dose desses produ-tos, que tem sua
dose terapêutica fixada em 35/40 mg por
quilo de peso vivo do animal, deve tal dose ser
fixada e criteriosamente observada quando do tratamento,
sob pena de resultados desastrosos, inclusive
com possível morte do animal.
Em
fins dos anos 70, foram desenvolvidos novos fármacos,
obtidos da fermentação de um fungo:
(Streptomyces avermitilis), isolado do solo, no
Japão. Uma dessas avermectinas, denominada
de B1, apresentou ação anti-parasitária
contra todas as fases larvárias desses
Gasterophilus, tanto nos ecto quanto endoparasitas.
Recentemente,
o anti-helmíntico salicilanilídico
closantel, utilizado geralmente associado aos
benimidazoles, sob a forma de pasta, mos-trou-se
também eficaz como gasterofilicida, inclusive
impedindo reinfestações dos eqüinos
até cerca de dois meses após o tratamento.
As
miíases ocorrendo em praticamente todo
território brasileiro devido nossas condições
climáticas predominantemente tropicais
e equatoriais que muito favorecem o desenvolvimento
dos insetos em geral, possibilitam sua multiplicação
em ritmo acelerado, e com isso concomitante aparecimentos
de bicheiras em nossos rebanhos, quer bovinos,
suínos, eqüinos, ovinos ou caprinos.
As
perdas decorrentes dessas miasses se traduzem
principalmente por menor rendimento dos rebanhos
explorados, quer na produção de
leite, quer na produção de carne
e seus subprodutos como o couro, este último
muito depreciado pela bicheira.
Dr. Carmello Liberato Thadei -
Médico Veterinário CRMV-SP-0442
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