Introdução
Quando
lemos no jornal histórias de crianças ou adultos
que foram atacados por cães nos perguntamos porque
isto está acontecendo. Histórias como essa
sempre aconteceram mas ultimamente a freqüência,
as circunstancias e a gravidade destas agressões
ultrapassaram o limite do aceitável. Para complicar
ainda mais essa situação, há o risco
da transmissão da RAIVA, uma vez que no Brasil esta
doença ainda não foi erradicada.
Por
outro lado mesmo que o cão agressor seja vacinado
contra raiva, a lesão provocada por uma mordida dilacerante
e contaminada é de tratamento complicado e deixa
uma cicatriz acentuada.
De
quem é a responsabilidade?
Como
evitar essas ocorrências?
O
propósito deste artigo é revisar a definição
de agressividade canina, apresentar os contextos em que
ela se apresenta e propor uma maneira de prevenir ocorrências
desastrosas com prejuízo a saúde humana e
animal.
Contexto
etológico
Quando
pensamos na agressividade canina tendemos vê-la como
uma ameaça eminente. Imaginamos um animal correndo
em nossa direção, os dentes afiados prontos
a fazerem um estrago extremamente dolorido que poderiam,
até mesmo culminar com nossa morte. Nos sentimos
ameaçados por um animal considerado o melhor amigo
do homem e que deveria manifestar agressividade somente
dentro de um contexto adequado e principalmente sob controle
do proprietário.
Para
pensar os contextos nos quais este comportamento normalmente
ocorre devemos tentar imaginá-lo numa situação
natural original, como quando o cão ainda era um
animal selvagem vivendo da caça, formando matilhas,
se reproduzindo e criando seus filhotes. Tal como o LOBO,
o mais provável ancestral do cão doméstico.
Para o lobo a agressividade é um componente chave
de uma série de contextos.
Quais
são estes contextos?
Lúdico:
o filhote apresenta muitas vezes, durante seu crescimento,
comportamentos que para o proprietário, parecem ser
agressivos. Na verdade tais comportamentos, na maioria das
vezes está associado ao brincar de brigar que prepara
o filhote para encontros agonísticos
que estabelecem sua dominância ou submissão,
configurando sua vida futura social.
Social:
Aqui a agressividade
determina a hierarquia
das relações através da dominância
e da subordinação entre pares de indivíduos.
Quando olhamos para a matilha como um todo observaremos
que o resultado é uma hierarquia
não linear de dominância.
Uma
vez que, para o cão, o homem e sua família
passaram a ser membros da matilha, será com eles
que estabelecerá a hierarquia por relações
de dominância e subordinação. Nesse
sentido o melhor é que o proprietário seja
o dominante, uma vez que é ele quem ditará
as regras. Ser dominante significa ter atitudes.
Para algumas pessoas talvez este tipo de afirmação
possa não soar bem, mas não podemos esperar
do cão uma atitude igualitária. Não
podemos esquecer do processo civilizatório por que
passamos e o quanto reprimimos nossas manifestações
instintivas. A chave para a compreensão deste tipo
de agressividade está na análise, sob a perspectiva
canina, das relações que se estabeleceram
entre os membros de uma família. Nesse sentido o
cão estabelecerá seu lugar de acordo com a
atitude de cada um e se utilizará da comunicação
através da linguagem corporal típica.
Os
cães com tendência dominante apresentam desde
filhote sinais indicativos. Podemos prevenir as conseqüências
dessa natureza através da aplicação
de testes
e posterior direcionamento da educação do
filhote.
A
manifestação de agressividade por dominância
de cães em relação a pessoas pode ser
vista no quadro posturas e sinais de
dominância
Territorial: Este contexto diz respeito ao estabelecimento
dos espaços de ocupação do cão
como indivíduo ou na matilha. Este espaço
varia de acordo com as circunstancias. Por exemplo: mesmo
quando um cão está passeando na rua uma área
de aproximadamente um metro, um metro e meio ao seu redor
ou ao redor dele e de seu dono podem ser considerados espaço
territorial.
Alimentar
ou predatória: O cão é um animal onívoro
que encontra seu alimento caçando, comendo carcaça
de animais mortos ou buscando seu alimento onde quer que
ele esteja, até mesmo no lixo.
Se
tivesse que caçar seu alimento a agressividade seria
um elemento fundamental para seu sucesso. A manifestação
deste tipo de agressividade é estimulada e dirigida
a "caça": animais sejam outros cães
ou próprio homem, ou até mesmo a objetos inanimados
como pneus de carros ou bicicletas em movimento, desde que
o cão os reconheça como presa potencial (geralmente
este estímulo ocorre em relação a tudo
que estiver em movimento de fuga). Nesse sentido o ataque
(perseguição ou busca) é obviamente
desferido sem qualquer aviso a tudo que provocar (eliciar)
o comportamento. O comportamento predatório (ataque,
perseguição e mordedura) somente irá
terminar quando a presa não mais apresentar movimentação
(fuga) ou quando o estímulo não for forte
o suficiente para desencadear o comportamento em toda a
sua plenitude. Em outras circunstancias o comportamento
não é completo e após uma curta perseguição
o cão para e late em direção a presa.
Isto ocorre como uma atividade deslocada quando outros estímulos
entram em ação interrompendo a manifestação
comportamental. Por exemplo uma pessoa que interrompe a
fuga e desfere ou ameaça desferir um ataque, ou uma
situação em que o perseguidor se vê
subitamente sob perigo.
Cães
abandonados, que habitam próximos a áreas
de mata, formam matilhas e caçam animais silvestres.
Potencialmente todo o cão é um caçador.
Por isso dependendo do contexto este comportamento pode
ocorrer quando, por exemplo uma criança assustada,
ao ver um cão pode sair correndo; o cão, nesse
momento, pode interpretar o que está vendo como uma
possível presa e sair correndo e morder a criança.
Esse tipo de comportamento varia com a raça, criação,
e temperamento individual e deve ser considerado quando
do estabelecimento do diagnóstico diferencial para
agressividade.
Defesa
pessoal: Um cão deve garantir seu espaço pessoal,
alimentos armazenados e objetos pessoais tais como cama,
comedouro, brinquedos, ossinhos. Além disso deve
se proteger de possíveis ameaças a sua integridade.
A agressão na dependência de um estimulo doloroso
é esperada. Seja por medo, dor ou posse esses animais
poderão apresentar em maior ou menor grau algum tipo
de agressividade que muitas vezes pode se manifestar precocemente
quando ainda filhote. Tal comportamento ainda que normal
no contexto da matilha e segundo a posição
hierárquica do indivíduo, pode ser prevenido
através de um condicionamento adequado.
Fêmeas:
De um modo geral a fêmea tende a ser menos agressiva
que o macho. Entre fêmeas são freqüentes
as agressões. A agressão maternal é
um comportamento normal em fêmeas lactantes.
A
seleção artificial tem algum papel no determinação
da agressividade?
Segundo
FOX, como conseqüência da domesticação
(seleção genética, alteração
do ambiente social e ecológico) os animais podem
ao longo de sua história filogenética
e/ou ontogenética:
1)
Sofrer atrofia ou hipertrofia, aumento ou diminuição
no limiar de resposta a estímulos de padrões
comportamentais
2)
Omitir, reordenar ou exagerar um ou mais componentes de
uma seqüência comportamental
3)
Desenvolver ritualização
ou emancipação de um padrão ou componente
4)
Desenvolver novos padrões comportamentais resultantes
do processo de desenvolvimento
É
preciso lembra-se que tais modificações são
resultado de uma seleção artificial e portanto
acentuaram ou atenuaram propositadamente alguns padrões
comportamentais.
Canídeos
silvestres ao apresentarem um comportamento agressivo dentro
do contexto social, procuram evitar encontros agonísticos
reais. Para tanto desenvolveram uma série de sinais
posturais e faciais que tem a finalidade de comunicar o
estado interno motivacional e intenções. Desse
modo asseguram posições de dominância
ou submissão. Esses sinais representam uma evolução
em direção ao estabelecimento da socialização
e garantem a unidade da matilha. Não é absolutamente
vantagem lutar e se ferir, muito menos morrer. As brigas,
em canídeos silvestres, são rápidas,
quando não ritualizadas, e terminam rapidamente quando
um dos animais sinaliza submissão.
As
raças caninas como são conhecidas por nos
só vieram a se estabelecer de maneira organizada
há aproximadamente 200 anos. Mas antes disso o homem
já selecionava cães para funções
específicas.
Cães
de luta foram selecionados para atacarem rápida e
inesperadamente sem aviso, terem um baixo limiar a estímulos
que desencadeassem o ataque, alto limiar para dor (menor
sensibilidade a dor), perderem o reconhecimento de sinais
de submissão que interromperiam o ataque e finalmente
foram muitas vezes selecionados para lutar até a
morte. Assim é muito comum que pessoas atacadas por
cães digam não ter visto nenhum aviso por
parte do cão.
Cães
de guarda foram selecionados para manifestarem agressividade
por dominância, uma vez que na matilha é o
dominante que tem entre outras funções o papel
de guarda do território e defesa dos membros da matilha.
Para que o cão cumpra esta função deverá
impedir que estranhos a família (matilha) se aproximem
ou invadam seu território.
Cães
de caça devem, dependendo da raça apresentar
o comportamento de caça parcial, por exemplo apontar
buscar ou acuar a caça.
Cães
de pastoreio a semelhança dos cães de caça
devem correr, cercar e direcionar o rebanho de acordo com
as ordens do proprietário, mas não devem atacar
e morder a presa.
Quadro1
| Posturas
ou sinais de agressividade ou ataque eminente |
|
Pilo-ereção |
|
Mostrar
os dentes. |
|
Encarar
de frente |
|
Abanar
apenas a ponta da cauda. |
|
Orelhas
eretas ou completamente achatadas. |
|
Orelhas
eretas e para frente, cauda elevada, reta, contato
visual prolongado |
Quadro
2
|
Posturas
ou sinais de dominância
|
|
Perseguir
os filhotes na ninhada. |
|
Ficar
de pé sobre o companheiro de ninhada. |
|
Andar
em círculos ao redor do companheiro de ninhada.
|
|
Empurrar
com ombro ou coxa |
|
Apoiar
as patas de frente no dorso do companheiro |
|
Ataque:
pescoço e face |
|
Urinar
sobre um outro cão ou pessoa. |
|
Rosnar,
beliscar, morder |
|
Montar
|
|
Ficar
acima da pessoa |
|
Pedir
carinho colocando a pata sobre a pessoa ou qualquer
outro comportamento que desencadeie a resposta do
proprietário. |
|
Bloquear
acesso: passagem de quarto, corredores, etc.
|
|
Guardar
comida, brinquedos e não permitir que o dono
pegue. |
|
Impedir
acesso a local de brincar ou ficar |
Quadro
3
|
Estímulos
que podem provocar agressão
|
|
Mexer
com ele: acordar, passar por perto, mandar sair
do lugar. |
|
Aproximar-se
da comida, pessoa favorita, sua área de descanso
mesmo que não se encontra nela. |
|
Estimulado
por carinhos, carícias. |
|
Colocar
ou tirar a guia. |
|
Ser
encarado de frente. |
|
Ser
reprimido. |
|
Ser
escovado, cortar as unhas, banho e tosa. |
|
Encontro
em passagens estreitas. |
|
Repressão
física ou verbal. |
|
Ficar
de pé ao lado ou sobre o animal. |
Quadro
4
|
Atitudes
que indicam dominância para um cão
|
| Sinais
de Alarme |
| Seu
animal jamais olhou "com cara feia "para
você? |
| Ele
jamais teve um expressão dura no olhar? |
| Você
deixa de fazer determinadas coisas, porque eliciam
rosnados ou mostrar os dentes? Por exemplo: mexer
na comida, tirar do sofá, passar por cima dele,
tirar do lugar onde ele está dormindo ou deitado. |
| Você
arruma desculpas para o comportamento agressivo dele?
Tipo: isso vai passar com a idade? |
| Você
acha que ele é seguro, exceto com determinadas
pessoas e circunstâncias. (quando ele rosna
para o veterinário você acha que isto
é problema do veterinário. Você
também ainda acha que é perfeitamente
normal ele não gostar do profissional.? |
| Ele
já mordeu, pelo menos uma vez, por que foi
um acidente, porque ele estava assustado, porque estava
nervoso. |
| Você
sempre diz: em geral ele é tão bonzinho,
quando ele agride ou você |
A maioria dos casos de agressão não é
pura e podem apresentar vários componentes.
Conduta
terapêutica
- Conscientizar
o proprietário.
- Identificar
situações de estímulo.
- Modificar
atitude.
- Dessensibilização
e/ou contra condicionamento.
- Inverter
dominância.
- Treino
para obediência.
- Castração
(cedo).
- Farmacológico.
- Manter
contato com proprietário.
- Contar
com o fracasso.
- Vigilância
continuada.
Dr.
Mauro Lantzman - Médico Veterinário -
Homeopata e Etólogo - São Paulo - SP
Este
artigo foi publicado originalmente no site do Dr. Mauro Lantzman
Bibliografia
FOX
M.W. Behaviour of Wolves, Dogs and related canids. New
York: Harper & Row Publishers, 1971
O'FARRELL,
V. Manual of canine behaviour. 2 ed. Cheltenham:
BSAVA, 1992.132 p.
SERPEL,
J.: The domestic dog: its evolution, behaviour and interaction
with people. 2 ed. Cambridge:
Cambridge University
Press, 1997. 240 p.