Leptospiroses
Doença
de Weil e Doença de Stuttgart
Dr.
Carmello Liberato Thadei
Médico Veterinário
São duas as doenças
com o nome genérico acima, a primeira denominada
DOENÇA DE WEIL, causada pelo L. icterohemorrhagiae,
e que ocorre no rato e no homem, com sintomas predominantemente
ictéricos; Já a Segunda, denominada TIFO
CANINO ou DOENÇA DE STUTTGART, e causada pelo
Leptospira canicola, é doença peculiar
ao cão, e transmissível também
ao homem, constituindo-se portanto em autêntica
antropozoonose.
D O E N Ç A D E W E I L
Como
já referido acima, é causada pelo Leptospira
icterohemorrhagiae, germe que mede de 6-9 micra de comprimento,
por 0,25 micron de espessura, e que tendo o corpo de forma
espiralada porisso é classificado como Espiroqueta,
grupo em que também se situa o germe causador da
sífilis: Treponema palidum; Porém, aquele
diferencia-se deste, segundo Petit, sob o ponto de vista
da motilidade : move-se mais lentamente do que o Treponema
e não está sujeito aos deslocamentos bruscos
que caracterizam o microorganismo causador da sífilis.
Cora-se em vermelho pelo corante GIEMSA, e também
pelos métodos de impregnação pela
Prata.
Na
primeira semana da doença de Weil, é o germe
encontrado no sangue, assim como na maioria das vísceras,
especialmente fígado, baço e rins; Posteriormente
desaparecem do sangue, permanecendo principalmente nos
rins ; Sendo expulsos pelos animais infectados, juntamente
com a urina, contaminam o solo, água e alimentos,
conservando-se vivos durante até 7 dias, desde
que em condições favoráveis, tais
como lama, águas estagnadas, margens de riachos
e coleções d'água de pouca movimentação,
onde podem viver durante tempo considerável. Origina-se
assim a infeção humana, a través
da contaminação da água e alimentos
com urina de animais doentes, do que é responsável
na maior parte dos casos, o rato, que tem o hábito
de urinar em pequenas coleções d'água
e lugares encharcados, sendo o cão, também
passível de se contaminar.
Após
período de incubação em torno de
uma semana, quando o germe invade as vísceras de
sua vítima, sobrevem então o período
febril, com dores musculares, e algumas vezes rigidez
da nuca (Sinal de Kernig), raquialgia, vômitos e
azotemia (eliminação de azoto pela urina);
Sobrevem então icterícia franca (presença
do pigmento hemoglobina do sangue, impregnando as mucosas
aparentes), assim como fenômenos hemorrágicos,
além de cilindrúria (eliminação
de cilindros renais pela urina), caracterizando o quadro
de nefrite. Durante o período febril que vai até
o quinto ou sexto dia, circulam os espiroquetas pelo sangue.
O
estágio ictérico na Doença de Weil,
caracterizado pelo hemólise do sangue, dando às
mucosas aparentes a coloração amarelada,
assim como coloração amarela intensa à
urina, estende-se até décimo terceiro dia,
quando a febre decresce, podendo então ocorrer
hemorragias. Nesse período ocorrem os desenlaces
fatais. A tonalidade da icterícia nessa doença
é importante, porque os doentes não apresentam
a cor amarelo-esverdeada própria da icterícia
comum, mas uma tonalidade vermelho-alaranjado, numa gradação
entre o amarelo da impregnação biliar e
o vermelho da congestão por vasodilatação
cutânea.
No
homem, a doença tem decurso em geral agudo, com
distribuição cosmopolita, e surtos epidêmicos,
que em geral sucedendo a enchentes, quando ratos que normalmente
habitam esgotos saem de seu habitat e contaminando a água
ou alimentos, causam a disseminação do mal.
Os
ratos de esgoto, parecem ser, ainda que não completamente
refratários ao gérmen, parecendo não
sofrer com a infeção, ainda que seus organismos
acusem reações: esplenomegalia (aumento
de tamanho do baço), e sôro-aglutinação
positiva. Os espiroquetas encontrados em grande número
nos rins e excretados na urina, são também
encontrados no fígado e outros órgãos
e eliminados pelas fezes. Pesquisas realizadas mostram
que, cerca de 10% dos ratos albergam o parasita, e índice
ainda maior (45%), tratando-se de ratos de esgotos (Rattus
norvergicus).
Além
da transmissão da Doença de Weil, através
da água de bebida contaminada por urina de ratos
infectados, o contagio pode também se processar
facilmente em minas de extração de carvão,
onde o ambiente úmido é propício
a sobrevivência do parasita, e é comum na
Inglaterra, Japão e Alemanha; Pescadores e trabalhadores
de esgotos e outros locais úmidos, assim como certas
categorias profissionais, como os veterinários
e outros tratadores de animais são favorecidos
pelo contágio. Banhos em rios ou lagoas de águas
paradas, poluídas por excretas humanos ou de animais,
são também locais de fácil disseminação
do mal.
Os
cães são susceptíveis ao germe, assim
como ao L.canicola, que será objeto de considerações
no capítulo seguinte, sendo que o agente por último
citado ainda não foi identificado em ratos, somente
infectando portanto cães e o homem. Possivelmente
os cães se infectam com o L.icterohaemorrhagiae,
pela ingestão de ratos contaminados; A doença
causada pelo L.canicola, própria dos cães,
passa de um cão doente para outro sadio, através
de alimentos contaminados por urina, agora oriunda de
outros cães, ou mesmo a traves do hábito
que tem esses animais de cheirarem os órgãos
sexuais uns dos outros, desse hábito tendo origem
o contágio.
O
diagnóstico da doença é efetuado
pelos sintomas e pelos exames complementares de sangue,
podendo ser confundida com a febre amarela, com diferenciação
não fácil, como ocorreu com pesquisador
americano (Stimson, em 1910), examinando órgãos
de doentes amarílicos na cidade de Manaus.
Incontestavelmente,
é o método de Sôro-Aglutinação
o melhor método de laboratório para seu
diagnóstico, não dando margem a dúvida.
Para
o tratamento, além da medicação sintomática
necessária é utilizada com sucesso a Penicilina
e seus sucedâneos sintéticos, além
de soroterapia específica.
Para
a profilaxia do mal, o combate aos ratos é necessário,
além de serem evitadas águas poluídas,
principalmente para bebida e abluções higiênicas.
Quando
da ocorrência de enchentes, as quais provocam a
saída das ratazanas de seus habitats, que vivem
normalmente em esgotos, são as ocasiões
de maior incidência da doença, quando devem
ser redobrados os cuidados com a água destinada
não só a bebida quanto para utilização
higiênica como banhos e mesmo simples lavar das
mãos.
Para
prevenção, existe Vacina Contra a Leptospirose
, preparada não só com antígenos
desta quanto daquela causada pelo L.Canicola, portanto
bivalente, altamente eficiente, e cuja repetição
deve ser realizada anualmente. Esta vacina deve ser realizada
em cães, de forma sistemática, e em populações
humanas, quando da ocorrência de enchentes.
Nas
explorações de suínos, quer de forma
extensiva quer intensiva, a vacinação periódica
é medida obrigatória.
T I F O C A N I N O - DOENÇA DE STUTTGART
Clinicamente
esta doença caracteriza-se por atacar cães
velhos, e como já frisado anteriormente, causada
pelo L.canicola.
Raramente é acompanhada de icterícia, e
evolui de forma crônica, lesando rins de forma a
determinar síndroma de uremia (aumento da taxa
de uréia no sangue).
A
sintomatologia é semelhante àquela anteriormente
objeto de nossas considerações, quando se
trata de paciente homem, apenas diferenciada da mesma
quando efetuada hemo-cultura e soro-aglutinações
específicas é possível a identificação
de qual dos dois leptospiras se trata.
É
usado também o exame de sangue em Campo Escuro
(Cardioide), método esse de Microscopia que permite
melhor visualização do agente causal em
amostras de sangue sem corantes específicos, que
em determinadas fases da doença, são encontrados
no sangue circulante.
Exames
procedidos por Guida, em 1948 na cidade de S. Paulo, em
cerca de 100 soros sangüíneos procedentes
de cães, revelaram a existência de resultados
positivos em cerca de 18% para L.canicola, e 13% para
L.icterohemorrhagiae, somando total de 31% para ambas
as doenças.
Animais
necropsiados que sucumbiram da doença, apresentam
além do quadro ictero-hemorrágico, lesões
necróticas sobretudo na mucosa da boca e língua,
exalando em conseqüência, odor fétido
característico, a través do ar espirado.
A
doença tem sido também assinalada de forma
expontânea, em suínos, mesmo criados e instalados
em granjas, e nestes animais a doença se estabelecendo
com sintomatologia similar aquela de cães, porém
em sua maior incidência, causada pelo L.icterohemorhagiae.
Para prevenção da doença em suínos,
a vacina deve fazer parte obrigatoriamente do plano preventivo-criatório.
Para
tratamento da doença é indicada a mesma
medicação recomendada para quando o agente
causal é aquele da Doença de Weil.
As
mesmas medidas profiláticas são também
indicadas, tanto para esta quanto para a doença
anteriormente abordada.
Dr. Carmello Liberato Thadei
Médico
veterinário - crmv-sp-0442