A
Melhor Angulação Escapular para a Movimentação
Bruno
Tausz
Etólogo
*
vale à pena esperar o download das imagens...
Ainda
hoje, inúmeros padrões de raça
enaltecem o ângulo de 45° , como ideal, para
a inclinação das escápulas com
a horizontal, visando a otimização do
alcance das passadas dos membros anteriores durante
a movimentação.
Persiste,
entretanto, um erro básico de postulação
do problema em todos os estudos já elaborados
sobre a estrutura ideal para a movimentação:
estudar movimentação considerando o cão
em estação (parado). Com isto perdem-se
inumeros dados que poderiam auxiliar no estudo da biodinâmica
da movimentação.
Aqui,
pretendo incluir vários movimentos, até
agora omitidos, que são os da própria
escápula durante o exercício da movimentação.
1.
variação do ângulo com a horizontal:
15° para frente e 15° para trás.
2. movimento elíptico do ponto médio da
crista da escápula.
3. levantamento da crista da escápula, acima
da linha superior ao apoiar a pata no solo para sustentar
o peso corporal do animal observado.
4. movimento à frente de todo o conjunto muscular
da cinta torácica transportando a escápula
à frente no afã de melhorar o alcance
da passada.
O
Ombro
A
escápula é o contato do membro anterior
com o tronco e o único osso que não está
acoplado por meio de articulações. Nos
bumanos, a escápula articula-se com a clavícula
que articula-se com a caixa toráxica no manúbrio
do esterno. Nos cães, a clavícula é
atrofiada ou, até inexistente, mas a tendência
é o desaparecimento total.
A nossa caixa toráxica, tem o formato elíptico,
cujo eixo maior está entre os ombros, enquanto
que nas espécies quadrúpedes, exatamente
por serem quadrúpedes o eixo maior está
entre a espinha vertebral e osso esterno.
Nos humanos a escápula trabalha nas costas, nos
caninos, ela é um osso chato e curvo perfeitamente
amoldado ao formato das faces laterais da caixa torácica,
proporcionando o movimento deslizante entre os músculos
que a sustentam contra o tórax.
Esse complexo muscular, chamado de cinta toráxica
sustenta, sem fixar, a escápula na sua posição,
formando uma articulação muito sigular,
mioartrose ou articulação muscular.
A
escápula, com seu formato especial, achatado
e modelado ao tórax, possui uma espinha na sua
face externa disposta ao longo do seu maior comprimento
e que a divide em duas metadas, praticamente iguais,
de grandes superfícies para inserção
e arquitetura de um complexo sistema biomecânico
de músculos suspensórios e amortecedores,
cuja distribuição tem orígem em
3 direções principais: pescoço,
dorso / costelas e membros anteriores.
Esse
formato achatado e amoldado ao tórax, permite
seu trabalho junto ao tronco, livre, sem articulações,
em movimentos deslizantes ao sabor das contrações
e relaxamentos musculares.
Na articulação com o úmero, sua
parte mais reforçada, a escápula funciona
como um capitel de coluna grega, que sustenta bem mais
que a metade do peso corporal do cão.
Para
o aproveitamento máximo do esforço, a
espinha da escápula deveria, segundo a maioria
dos padrões de raça, fazer um ângulo
de 45° com a horizontal, ângulo esse, que
ofereceria, ao úmero a maior amplitude do movimento
pendular do membro anterior, para a frente e, como conseqüência
imediata maior amplitude de passada.
O
valor ideal de 45° é discutível, uma
vez que são raríssimos os exemplares cuja
angulação escapulo-horizontal tem esse
valor e, os que o apresentaram, não demonstraram
bom rendimento na movimentação.
H á que ser observado que o hipismo existiu antes
da cinofilia, cujos primeiros padrões de raça
foram redigidos por hipistas, com parâmetros eqüinos,
os quais, por sua vez foram elaborados à luz
da anatomia humana.
As
estruturas eqüinas que deram certo, foram estudadas
para espécies animais de grande porte, com um
peso aproximado de 500 a 600 quilos. As espécies
caninas mais pesadas atingem cerca de 10% desse valor.
Nas
espécies caninas, a cinologia observou que os
exemplares de melhor rendimento, no trote, apresentavam
um valor em torno dos 50° a 60° para a angulação
escapulo-horizontal.
O
Cão em Estação
O
ângulo, que a escápula faz com a horizontal,
tem muito pouca importância para o cão
em estação, se o objetivo é a otimização
do alcance à frente, dos membros anteriores,
durante a movimentação.
De fato, toda a teoria apresentada por McDowell Lyons,
considerou, para suas hipóteses o cão
em estação.
As
ilustrações de Lyons comparativas entre
as escápulas inclinadas a 45° e 60° para
dissertar sobre a eficiência do alcance da passada
dos anteriores jamais considerou os possíveis
movimentos da escápula.
Lyons comete o absurdo de afirmar que o fato da escápula
estar inclinada a 45° aumenta seu tamanho proporcionando
uma área maior para a inserção
de músculos, no lugar de comparar duas escápulas
de mesmo tamanho, variando, apenas o ângulo de
inclinação.
O segundo grande erro geométrico aconteceu quando
Lyons tentou analisar, separadamente, os movimentos
escapulares montando sua hipótese com o objetivo
único de provar que o ângulo de 45°
era "de longe superior ao de 60º":
1.
45° corresponde à diagonal do quadrado.
2. 60° , geometricamente, corresponde à diagonal
de um retângulo e à hipotenusa dos dois
triângulos retângulos formados, portanto,
15% maior que a diagonal de um quadrado inscrito (trigonometria).
3. Uma análise isenta deveria supor duas inclinações
diferentes, 45° e 60° para a mesma escápula,
no lugar de afirmar que 60° confere um arco menor,
declarando o maior absurdo geométrico.
4. Para reforçar sua afirmativa absurda, sem
base trigonométrica, mostra que a escápula
a 60° descreve um arco menor (F) que uma com ângulo
de 45° quando a escápula sequer gira somente
em torno de um eixo teórico pois ela, segundo
o próprio Lyons não está fixa por
articulação e sim, por musculatura.
No
momento em que, durante a movimentação
(e não em estação) a pata busca
uma posição o mais à frente possível,
a escápula deverá assumir o ângulo
de 45° , e, para levar esse membro para trás,
o ângulo da escápula, com a horizontal
deverá aproximar-se dos 90° , isto é
quase vertical.
Para
que isto possa acontecer, o ângulo da escápula
com a horizontal, quando o cão está em
estação deverá ficar em torno dos
57° a 60° .
O movimento escapular não é, assim, tão
reduzido que possa ser desprezado.
Girando
sobre o eixo teórico (C), no centro do maior
tamanho da espinha da escápula.
No movimento do membro para a frente, a escápula
gira, em sentido horário, cerca de 15° .
No movimento para trás a escápula gira,
em sentido anti-horário, cerca de 30° .
Há, ainda que levar em consideração
o fato que todos os autores descrevem a escápula
como não estando articulada com osso algum do
tronco, mas sustentada por complexo muscular, complexo
esse que permite ao eixo teórico (C) um movimento
elíptico.
A
coroa da escápula aparece várias vezes
acima da linha superior durante a movimentação.
Computar esse movimento elíptico, complicaria
o cálculo da angulação escápuloumeral
tomada com o cão em estação.
Entretanto, é exatamente esse, o movimento que
permite ao cão realizar a força tratora,
no ápice da escalada duma rampa de obstáculos,
para colocá-lo do outro lado. Os músculos
que realizam esse trabalho são os de inserção
na escápula.
A coroa forma o que chamamos de cernelha e a ponta da
escápula, cuja cavidade glenódea articula-se
com o úmero, forma a ponta do ombro e o vértice
da angulação escapuloumeral. Num ombro
bem construído, a distância da coroa da
escápula até a ponta do ombro deve ser
aproximadamente igual à distância da ponta
do ombro ao cotovelo.
A
Articulação Escapuloumeral
Não
se pode falar de modificação da angulação
escapular sem fazer uma análise da angulação
escapuloumeral com os valores de uma nova situação
da escápula.
1.
É preciso fazer as contas.
A bissetriz do ângulo entre a crista da escápula
e o eixo do úmero deve ser horizontal.
Para que isto aconteça, a angulação
escapuloumeral deve ser sempre o dobro do ângulo
da escápula com a horizontal.
Em outras palavras o ângulo que o úmero
deverá fazer com a horizontal é idêntico
ao ângulo da escápula.
O
antigo padrão da raça Rottweiler preconizava
um ângulo de 90° , para a articulação
escápulo-umeral, e de 45° a da escápula
com a horizontal.
Quando perceberam que o Rottweiler jamais iria ter uma
escápulo-umeral de 90° , mesmo porque, se
conseguissem pareceria aleijado, mudaram para 115°
, mas esqueceram-se de reavaliar a escápulo-horizontal,
que permaneceu nos 45°.
A
diferença: 115° - 90° = 25° agora,
45º + 115º = 160º, então, o úmero
faria, com a vertical, um ângulo de, apenas 20°
que é a diferença com a soma de dois ângulos
retos: 180° : 180° - 160° = 20°
Para
equilibrar, novamente o sistema, o ângulo real
com a horizontal deverá ser substituido de 45°
para, em torno de 57° ou, até mesmo, em torno
dos 60° . A teoria que diz que a escápula
ideal está a 45° com a horizontal, acaba
de ser ultrapassada, pois todos os cálculos feitos
até agora sobre a angulação escapular
ideal para uma movimentação fluente com
maior alcance de passada foram feitos considerando o
cão em Stay esquecendo, completamente,
que:
1.
a escápula articula-se com o tórax
através de musculatura (cinta torácica);
2. durante a movimentação, a escápula
desenvolve uma trajetória pendular, oscilatória
em torno de um eixo;
3. esse eixo, por sua vez, descreve um movimento elíptico,
causando o aparecimento da crista da escápula
acima da linha superior várias vezes durante
o trote.
4. a inclinação da espinha da escápula,
resultante desses movimentos, oscila em torno dos 45º;
15° à frente e 30° para trás.
Assim,
com a escápula a 60° em stay, na sua posição
extrema para à frente, (-15° ) o ângulo
da espinha da escápula atinge a angulação
ideal de 45° .
Os
criadores alemães estão no caminho certo,
só resta corrigir o ângulo escápulo-horizontal
(no texto, porque efetivamente, os cães já
os tem corretos, só que está sendo considerado
falta).
A
conclusão que se chega é que a melhor
angulação para a escápula é
mesmo a de 45° QUANDO EM MOVIMENTO E A POSIÇÃO
DO MEMBRO, MÁXIMA À FRENTE
E,
para estar nesta posição, é necessário
que, parado o cão tenha uma angulação
escapulo umeral de 115º a 120° e uma angulação
escapulo horizontal de meio valor 57° a 60°
Bruno
Tausz
Etólogo
Presidente do Conselho de Cinologia da Confederação
Brasileira de Cinofilia
Árbitro de Adestramento.
Árbitro de Estrutura e Beleza de Todas as Raças.
Autor dos livros:
"Linguagem das Cores"
"O Rottweiler"
"Adestramento Sem Castigo"
"Dicionário de Cinologia"