Transfusão
sangüínea em cães e gatos
Dr.
Albert Lang
Médico Vetrinário
INTRODUÇÃO
Presente
manual foi idealizado para auxiliar o veterinário
nos casos em que a transfusão sangüínea
em caninos e felinos é indicada.
Na
maioria das vezes as transfusões são realizadas
em caráter de emergência, em pacientes extremamente
anêmicos e sujeitos a risco de vida imediato, independente
da causa.
Pretendemos
que este manual venha a ser extremamente útil e
pratico, capaz de, ao ser consultado, fornecer elementos
necessários à coleta e transfusão
de sangue nas espécies consideradas, não
se pretendendo aqui tecer considerações
quanto à classificação e ao estudo
das anemias.
OBJETIVO
DA TRANSFUSÃO
A
transfusão sangüínea tem por objetivo
manter a vida no paciente acometido de considerável
redução de células sangüíneas
e manter a circulação da hemoglobina em
níveis satisfatórios. paralelamente, seu
efeito se faz sentir na recomposição da
volemia nos casos de choque hemorrágico agudo,
não devendo ser a transfusão utilizada única
e exclusivamente com esta finalidade.
Geralmente,
nestes casos, a transfusão com sangue armazenado
sob condições ideais tem contribuído
efetivamente para a recuperação do animal
por um prazo de 20 dias. nos casos de anemia não
regenerativa e naquelas do tipo não hemolítica
uma única transfusão tem sido satisfatória.
INDICAÇÕES DA TRANSFUSÃO
1-
A transfusão é indicada quando ocorre baixa
da concentração celular sangüínea
acompanhada com sintomas clínicos de anemia ( mucosas
pálidas, taquicardia, sopro cardíaco funcional:
sopro anêmico ). como parâmetros de hemoglobina
e de hematócrito que exigem transfusão,
podemos considerar os seguintes limites mínimos:
| NO
CÃO: |
HEMOGLOBINA................................ |
5g/100ml |
| |
HEMATÓCRITO................................. |
15
% |
| NO
GATO: |
HEMOGLOBINA................................ |
4g/100ml |
| |
HEMATÓCRITO................................. |
12% |
2
- Durante as cirurgias prolongadas e traumatizantes com
grande perda de sangue.
3
- Nos estados de hipoproteinemias resultantes de prolongada
inanição, de enfermidades parasitárias
consuntivas, de infecções, de queimaduras
e de intoxicações.
4-
Como terapia inespecífica estimulante, com a finalidade
de restabelecer a resistência dos animais e nos
casos de convalescença prolongada decorrente de
tratamentos cirúrgicos.
CONTRA-INDICAÇÕES
DA TRANSFUSÃO
A
maior contra-indicação a ser considerada
é a que diz respeito à incompatibilidade
do sangue transfundido com o do receptor. no entanto,
em pacientes com hemorrágica aguda e sob risco
de vida, o sangue deve sser aplicado como recurso de emergência,
sem maiores cuidados.
Nos
casos de cães com doenças auto-imunes (anemia
hemolítica auto-imune), apesar de não ocorrer
incompatibilidade, mas apenas maior destruição
de eritrócitos do sangue transfundido, não
há inconvêniecia da transfusão, desde
que se tomem cuidados adequados para esta situação.
No
cão, o grau de depressão ao estímulo
eritropoiético ocasionado por uma transfusão
ainda não é bem conhecido. na prática,
transfusões repetidas em cães e gatos não
parecem diminuir significativamente a eritropoiese.
SELEÇÃO
DO DOADOR
Sucesso
de uma transfusão depende de criteriosa seleção
do doador. selecione cães com idade acima de um
ano, pesando entre 20 a 30 quilogramas, não obesos,
de temperamento dócil e fácil manejo, que
anteriormente não tenham recebido transfusões.
a prática tem mostrado que cães de raça
pointer, pastor alemão, dálmata e outros
cães mestiços de grande porte se prestam
muito bem para esta finalidade. Em hospitais veterinários
é importante que 2 ou 3 animais de propriedade
do estabelecimento estejam sempre disponíveis,
nas condições acima descritas.
Os
doadores devem ser clinicamente sadios, apresentarem boas
condições físicas, isentos de parasitos
de qualquer espécie, cercados de atenção
especial com relação àquelas moléstias
possíveis de serem transmitidas por via sanguínea.
É recomendável, cada seis meses, vacinar
os doadores contra a cinomose, a hepatite infecciosa e
a leptospirose.
Hematócritos
periódicos constituem norma recomendável
para se aquilitar o nível sangüíneo
capaz de assegurar uma transfusão satisfatória.
Considerando
que na prática a tifificação do sangue
canino é dificultada pela ausência de soros
espacíficos, convém que o profissional se
baseie na observação dos pacientes que receberem
a transfusão. caso haja repetição
de repetição de reações transfusionais,
o doador deve ser substituído.
De
preferência, deve ser usado um doador cea-1 e cea-2
negativos, antigamente classificado como tipo a negativo,
sendo que as chances de encontrá-los são
de 40 %.
Modernamente,
os grupos sangüíneos são classificados
com a abreviação cea (canine erythrocytes
antigens) e em número de oito, assim distribuídos:
| GRUPO |
INCIDÊNCIA |
| CEA- 1 |
40 % |
| CEA- 2 |
20 % |
| CEA- 3 |
5 % |
| CEA- 4 |
98 % |
| CEA- 5 |
25 % |
| CEA- 6 |
98 % |
| CEA- 7 |
45 % |
| CEA- 8 |
40 % |
Dos
grupos acima mencionados, somente os cea-1 e cea-2 são
muito reativos. transfusões feitas em cães
que foram previamente sensibilizados com cea-1 ou cea-
2 resultam em reações graves, com hemólise
severa.
Os
outros antígenos remanescentes reagem, muito fracamente
em cães previamente sensibilizados, sendo rara
a ocorrência natural de anticorpos.
COLETA
DE SANGUE
Existem
duas formas de coletar sangue: a direta e a indireta.
Direta
é aquela feita com o objetivo de uma transfusão
imediata do doador ao paciente. este método tem
se mostrado ineficiente na maioria das vezes, levando-se
em conta a inquietude dos pacientes e dos doadores.
Na
indireta o sangue coletado é armazenado em recipiente
apropriado para sua conservação, constituindo-se
no método mais utilizado em medicina veterinária.
A)
PREPARO DO DOADOR
Doador
deve ser previamente tranqüilizado com cloridrato
de clorpromazina na dose de 3 a 5 mg por quilograma de
peso vivo. ao total da dose tranqüilizante, adicionar
atropina na dosagem de 0,4 mg por quilograma de peso,
e injetar lentamente por via endovenosa, utilizando-se
da veia cefálica. após 15 minutos de aplicação
o doador estará em condições para
a coleta do sangue.
Alguns
clínicos preferem anestesiar o doador com barbitúricos
de curta ação. a prática tem mostrado
não haver nenhuma inconvinência para o receptor,
com relação ao sangue transfundido nestas
condições.
B)
ÁREAS DE COLETA
Sangue
deve ser obtido referentemente da veia jugular, pós
prévia tricotomia da região a fim de assegurar
a limpeza e assepsia da pele. após assepsia com
phiso-ex ou isodine, garrotiar a veia jugular na altura
do manúbrio externo.
Pratica-se
a punção do vaso com agulha grossa (agulha
descartável n.º 15) ou cateter, e a seguir
conecta-se o apropriado e deixa-se o sangue fluir livremente.
Alguns
veterinários preferem utilizar agulha e equipo
previamente umedecidos com heparina, antes da coleta.
outros recomendam a aplicação de heparina
na dosagem de 150 a 300 ui/kg pv, via ev, 5 minutos antes
da coleta. ambos os procedimentos visam evitar a formação
de coágulos nas agulhas e equipos.
Tão logo o sangue flua livremente pelo equipamento
coletor, conectar uma agulha grossa na extremidade livre
e introduzir no frasco coletor, no local indicado "entrada",
e o sangue fluirá para dentro do frasco. convém
lembrar que o frasco coletor possui vácuo e a tampa
somente deverá ser perfurada quando o equipamento
coletor estiver adequadamente montado, com o sangue fluindo.
Outra
técnica de coleta consiste na punção
cardíaca. nestes casos, usar agulha grossa nº15,
puncionando o ventrículo direito ou esquerdo com
o animal previamente anestesiado. esta via não
é recomendável para doadores selecionados,
pois há risco de sua perda.
QUANTIDADE
A SER COLETADA DE UM DOADOR
Estudos
recentes concluíram que a quantidade de sangue
por kg de peso corporal, no cão, é de aproximadamente
111,3ml. um doador selecionado, que não se pretende
sacrificar, poderá doar 20ml/kg, com coletas repetidas
cada 2 semanas, sem prejuízo para o doador. o controle
do hematócrito e da hemoglobina média assegurará
os níveis de qualidade do sangue.
Entretanto,
nos doadores que serão sacrificados deve ser coletado
o máximo de sangue possível.
RECIPIENTE
PARA CONSERVAÇÃO DO SANGUE.
Os
recipientes para coleta de sangue são de plástico
ou de vidro, contendo anticoagulante no seu interior,
para uma determinada quantidade de sangue.
Três
tipos de anticoagulantes são mais usados para a
conservação do sangue:
- ACD-
ÁCIDO CÍTRICO, CITRATO DE SÓDIO
E DEXTROSE.
- CPD-
CITRATO DE SÓDIO, FOSFATO E DEXTROSE.
- H-
HEPARINA.
-
Estes
anticoagulantes são ajustados para certo
volume de sangue e, desta forma, os frascos devem
ser enchidos de acordo com a instrução
do fabricante, contida no rótulo, de modo
a não permanecer excesso de anticoagulante.
A
dextrose contida nos anticoagulantes acd e cpd é
importante para nutrição e sobrevivência
dos eritrócitos, quando o sangue é
armazenado por muito tempo. no entanto, para as
transfusões imediatas, o tipo de anticoagulante
não tem importância.
O
sangue estocado em acd apresenta uma redução
dos níveis de 2,3 dpg (difosfoglicerato).
a hemoglobina, sob níveis baixos de 2,3 dpg,
tem uma dissociação lenta com menor
liberação de oxigênio para os
tecidos. o sangue, transfundido nestas condições,
readquire os níveis normais de 2,3 dpg após
decorridas 3 a 4 horas da transfusão. este
fato se reveste de grande importância quando
há necessidade de se usar transfusões
maciças. nestas circunstâncias o sangue
conservado em cpd é preferível ao
acd, por manter mais elevados os níveis de
2,3dpg.
A
heparina não se presta como conservador,
devendo o sangue heparizado ser utilizado, no máximo,
até 48 horas após a coleta, sendo
mais usada quando se requer uma transfusão
imediata, devendo ser diluída na proporção
de 450 ui em 6 ml de solução salina,
para 100 ml de sangue.
ARMAZENAMENTO
DO SANGUE
O
frasco contendo sangue para transfusão deve
ser identificado, datado e armazenado na temperatura
de mais ou menos 5º c, em geladeira de uso
doméstico. nestas condições,
apesar das variações de 1º c
até 6º c, pode ser estocado até
21 dias.
O
sangue mantido em acd não altera a vitalidade
dos eritrócitos, que é de 120 dias,
quando transfundido até o 4º dia da
coleta. após aquele prazo inicia-se um processo
de desvitalização do mesmo. assim,
com 15 dias de armazenamento, a vida dos eritrócitos
não ultrapassa os 80 dias e, após
21 dias de estocagem, 70% das células sangüíneas
não sobreviverão 24 horas após
a transfusão.
MODALIDADES
DA TRANSFUSÃO
Duas
alternativas decorrem do uso do sangue: volume total
ou somente volume de eritrócitos.
Para se fazer a transfusão do volume total
de sangue, indicado na maioria dos casos, devemos
misturar suavemente o conteúdo do frasco
para que plasma e glóbulos sejam homogeneizados,
pois que os elementos figurados do sangue mantido
em geladeira sedimentam, separando-se do plasma
nos casos de anemia crônica, quando apenas
os eritrócitos são requeridos , o
plasma deve ser retirado do frasco antes do início
da transfusão. eventualmente pode-se armazenar
o frasco de boca para baixo, de modo que os eritrócitos
sedimentados sejam os primeiros a serem esgotados,
evitando-se assim os inconvenientes de outros processos
que poderiam acarretar contaminação
nas manobras de separação do plasma.
Para
as transfusões, o sangue não necessita
de aquecimento; contudo, para pacientes com hipotermia,
convém aquecê-lo previamente. isto
poderá ser conseguido mergndo-se o frasco
ou mantendo-se o equipamento em água morna.
VIAS
DE TRANSFUSÃO
Dependendo
do porte e da idade do animal, três vias distintas
podem ser utilizadas para transfusão: a endovenosa,
a intraperitoneal e a intrafemural.
A
- VIA ENDOVENOSA
A
via endovenosa é a mais usada, devendo ser
preferida pelos bons resultados que oferece. apresenta
maior facilidade na contenção do animal
preso à mesa e, na maioria das vezes, não
há necessidade de se manter auxiliares ao
seu lado, por ocasião da transfusão.
no entanto, é aconselhável a colaboração
do proprietário junto ao paciente, pois que,
geralmente, a sua presença transmite mais
tranquilidade ao animal.
As
safenas, as cefálicas e as jugulares são
as vias comumente usadas nas transfusões.
B-
VIA INTRAPERITONEAL
Os
resultados das transfusões feitas por esta
via tem sido contestados por alguns autores. no
entanto, outros a recomendam apenas nos casos em
que o paciente é portador de anemia crônica.
em nossa prática, não temos obtido
bons resultados com esta via.
C-
VIA INTRAFEMURAL
É
indicada principalmente em cães jovens (filhotes),
pela facilidade em se conseguir a perfuração
do osso femural e o sangue ser absorvido em 75%,
passando rapidamente para a circulação.
DOSAGEM
DO SANGUE NAS TRANSFUSÕES
Na
prática, as dosagens de sangue tem sido feitas
de modo arbitrário, estabelecendo-se um critério
de transfundido ente 10 a 20 ml de sangue por quilograma
de peso. alguns autores recomendam dosar previamente
a hemoglobina do paciente r, partindo-se do princípio
de que existem 7 gramas de hemoglobina em cada 100
ml de sangue doado, pode-se calcular a quantidade
necessária a ser transfundida. no entanto,
o sistema arbitrário, por ser mais simples,
tem sido mais usado, demonstrando resultados satisfatórios.
O
gotejamento do sangue deve ser iniciado lentamente
(30 gotas por minuto), até completar uma
hora. se, durante este período, o paciente
não apresentar reações secundárias
(urticária), o gotejamento pode ser aumentado
para 80 gotas por minuto ou mais. nas hemorragias
agudas, em casos extremos, a fim de salvar a vida
dos pacientes, deve ser injetada a maior quantidade
possível de sangue, iniciando-se com 80 gotas
por minuto ou mais.
A
manifestação de reações
secundárias é fator determinante para
a suspensão da transfusão. a quantidade
de sangue transfundida deve ser o suficiente para
elevar o hematócrito a um nível de
30%, porém, na maioria das vezes, hematócritos
pouco acima de 20% já são suficientes.
não se deve eleva-lo a níveis normais
ou muito próximos destes, sob risco de supressão
do estímulo eritropoiético.
TRANSFUSÃO
DE SANGUE EM GATOS
Método é bastante
semelhante ao emprego em cães. Usa-se o sangue
heparinizado, retirado por punção
cardíaca ou da jugular de um doador sadio.
este deve ser de bom tamanho, podendo doar de 100
a 170 ml. a via de transfusão nos adultos,
é a jugular; nos filhotes (gatinhos), utiliza-se
a fossa tracantérica (intra umeral).
De
modo geral, 20 a 60 ml de sangue são utilizados
em cada transfusão normalmente, os gatos
vomitam após a transfusão e, naqueles
extremamentes anêmicos, a morte pode ocorrer
durante a mesma, sendo desconhecida a causa.
Dr. Albert Lang
Joinville/SC - CRMV -SC: 1617