Toxoplasmose
Dr.
Carmello Liberato Thadei
Médico Veterinário
É doença causada
pelo protozoário Toxoplasma gondii, cuja
posição
sistemática ainda não está satisfatoriamente
estabelecida; Seu descobrimento data do ano de 1908
em roedor africano:(Cenodactylus gondi,e no Brasil no
coelho, e posteriormente em mais de 80 espécies
animais,tanto domésticas quanto silvestres,inclusive
em aves.
Parasitando
a espécie humana foi comprovado no ano de 1914,
porém só em 1923, na Checoslováquia
(Jankú) realizou avaliação da doença,considerando-a
particularmente perigosa para crianças ainda em
fase de gestação no ventre materno.
O
parasita é capaz de invadir, naturalmente, qualquer
organismo animal de sangue quente (homeotermos),nos quais
se multiplica em ciclo assexuado; É parasita estrito
do interior da célula (intra celular), e principalmente
células do sistema nervoso central, endotélios
e dos músculos estriados como o são aqueles
esqueléticos e do coração(miocardio);
Atravessada a membrana celular da célula que irá
parasitar, inicia o toxoplasma sua multiplicação
de forma assexuada - sem concurso de células diferenciadas
em gametas masculinos ou femininos - e após número
variável de partições, a célula
hospedeira, que devido seu aspeto passa a denominar-se
pseudo-cisto, se rompe, deixando em liberdade os organismos
resultantes dessa partição,que passam a
denominar-se de zoitos, os quais rapidamente invadem novas
células ,prosseguindo em ciclo parasitário.
O
parasita, cuja tamanho é microscópico, portanto
só visível mediante utilização
de meios óticos ou eletrônicos como o próprio
microscópio, tem forma semelhante à gomo
de laranja, e após a multiplicação
assexuada no interior celular, em poucos dias assume sua
forma de resistência, denominado de cisto, no qual
os parasitas persistem por anos ou mesmo toda a vida do
hospedeiro.
Além
do anteriormente descrito ciclo assexuado, existe também
um outro ciclo, agora sexuado, e denominado de Gametogônico,
que ocorre particularmente em felinos, inclusive no gato
doméstico. Neste ciclo descoberto por Hutchinson
em estudos quase simultâneos aos de Dubey e Frankel,
ciclo que se processa em células da camada interna
dos intestinos, e no qual aparecem células diferenciadas
em gametas masculinos e femininos, denominadas macro e
microgametas, os quais dão origem aos chamados
oocistos; Tais oocistos passando para a luz dos intestinos
são eliminados juntamente com as fezes do animal
hospedeiro. Referidos oocistos para se tornarem infectantes
para outros animais, sofrem processo de esporulação,
dando origem cada um a dois esporocistos, os quais por
sua vez dão origem cada um à quatro espozoitos;
Tais oocistos infectantes são capazes de sobreviver
à digestão gástrica, ao ácido
sulfúrico na concentração de 1%,
ao dicromato de potássio a 2,5% e ao hipoclorito
na concentração de 2,5%, e de manterem-se
viáveis muitos meses em ambiente úmido e
arejado.
Daí
surgem os vários caminhos para o contagio humano:
1 - Possivelmente a via mais freqüente seja a
ingestão de carnes cruas ou mal cozidas, o
que permite a sobrevida do parasita contido nessas
carnes;
2 - Cadeia epidemiológica denominada Gametogônica,
e conhecida desde 1969, conseqüente a contaminação
de objetos ou mesmo alimentos ou mãos por fezes
de gatos infectados;
3 - Acidentalmente, na preparação de
antígenos utilizados para provas diagnósticas
da doença, ou por caçadores que se contaminam
com sangue de animais doentes.
Penetrando
o parasita em um organismo animal suscetível
à doença, suponhamos que pela via digestiva
a través de alimentos contaminados, o toxoplasma
é liberado da célula que o continha e
penetra em células da mucosa intestinal, nas
quais se reproduz rapidamente; Nessas células
em que penetrou, após várias divisões
celulares, dá origem aos chamados merozoitos,
os quais invadem por sua vez novas células, inclusive
células de defesa do organismo, como o são
os macrófagos; Estas últimas, por serem
móveis e circularem junto com o sangue, levam
o parasita em seu interior para os gânglios linfáticos
regionais, onde o processo tem continuidade, constituindo
então por via linfática e sangüínea,
uma parasitemia (multiplicação do agente
no sangue circulante), com conseqüente disseminação
do parasita em todo organismo, e devido a predileção
do mesmo por células nervosas e da musculatura
estriada, ao sistema nervoso e também ao coração,
além dos músculos esqueléticos.
A
severidade de tal infeção dependerá,
como ocorre em outras infeções, da resistência
do hospedeiro assim como virulência do toxoplasma
e sua quantidade relativa presente no organismo infectado.
Com
a introdução do parasita no organismo
hospedeiro têm início os fenômenos
imunológicos, que se traduzem: primeiro, pelo
aparecimento de anticorpos circulantes do tipo IgM (imuno-globulinas
do tipo M) constituindo a chamada imunidade imediata;
segue-se a chamada imunidade retardada, mediada por
células do sistema retículo endotelial,
o que provocará em caso de sucesso das defesas
orgânicas, na extinção das formas
zoiticas do toxoplasma.
No
entretanto, as formas císticas do Toxoplasma
persistirão por muitos anos e mesmo toda a vida
do hospedeiro infectado, caso o mesmo não venha
a perecer do mal, ficando porém portador assintomático,
com alto título de anticorpos em seu organismo.
Tais cistos, multiplicando-se no interior das células
de forma lenta, mantém o estímulo antigênico,
e somente no caso de ocorrerem doenças intercorrentes
ou medicação imunosupressora, poderão
determinar reativação da toxoplasmose,
com rompimento de tais cistos e extravasamento dos mesmos
para o tecido pericístico vizinho. Tal rompimento
de cisto foi já observado com o auxílio
do oftalmoscópio, em exames oculares de portadores
da doença com localização na retina,
o que ocorre com relativa freqüência, determinando
a chamada retinocoroidite, freqüente nos primeiros
decênios de vida do indivíduo infectado.
Na
toxoplasmose congênita, ou seja aquela originária
de contagio do feto pela própria mãe infectada,
manifestam-se com freqüência desde simples
conjuntivite até microftalmia, passando por uma
irite, uveite, hemorragias retinianas, opacificação
dos meios líquidos do olho, retinocoroidite,
etc. É no entretanto, mais freqüentemente
observada esta última, conseqüente a reativação
localizada imediata.
É
descrita em oftalmologia, lesão dita patognomônica
(típica) da doença, e que se traduz por
retinopatia em forma de roseta.
Trabalhos
recentes trazem a suspeita do parasita secretar toxina
que é eliminada e se difunde de forma contínua,
a través do sangue do hospedeiro, para todo o
organismo infectado; Tal toxina atinge maior concentra-ção
quando se instalam os pseudo-cistos, e cujo efeito tem
maior importância sobretudo ao órgão
em que esteja localizado o referido pseudo-cisto, sobretudo
no caso de ser este o cérebro. Não parece
improvável que a toxina intervenha na patogenia
da doença;Demonstrou-se que apenas 0,1 ml do
exsudato peritoneal centrifugado, procedente de um rato
infectado, injetado em outro rato sadio por via endovenosa,
mata este último em poucos segundos.
A
grande difusão do parasita na natureza,aliada
à facilidade de sua transmissão às
mais diversas espécies animais e ao homem, são
favore--cidas pela peculiar biologia do mesmo: uma escassa
especificidade de hospe-deiro, possibilidade de localizar-se
em vários órgãos, sua eliminação
em estado infectante, sua grande resistência ante
os fatores externos na natureza e suas amplas possibilidades
de infeção.
No
cão doméstico, os sintomas tem grande
semelhança com aqueles da Cinomose (virose que
ataca essa espécie);São observados transtornos
gástricos, cerebrais e pneumônicos; e os
cães jovens (entre 2 meses e 2 anos), são
também mais susceptíveis de adoecerem
de forma aguda, diferentemente dos animais mais velhos,
nos quais a doença, como também na cinomose,
tem caracter prevalentemente crônico. Nos casos
manifestos, acompanham a febre, vômitos, inapetência,
diarréia intensa e incoercível, emagrecimento
e lassidão, decaimento do estado do animal, conjuntivite
e tumefação dos gânglios linfáticos
do baço e do fígado.
Na
forma nervosa, como na Cinomose, contrações
do tipo epileptiformes,espasmos e até paralisias
são observados. Nas formas pulmonares: bronco-pneu-monia
não purulenta. Nas úlceras, encontradas
em órgãos de animais que pere-ceram do
mal, são encontrados ao exame microscópico
o agente causal.
Em
suinos a doença é encontrada prevalentemente
em sua for-ma latente, no entretanto, leitões
podem apresentar desde simples eczema de pele, até
vertigens, debilidade, dispnéia,tremores musculares
e tumefações testiculares, assim como
febre alta com pneumonia, enterites e nefrites. Foram
já isolados toxoplasmas no leite, carne e placenta
de suínos ex-perimental e espontaneamente infectados.
O
gado vacum adoece geralmente de forma latente, em poucos
casos apresentando-se febre, com respiração
acelerada e dispnéia, tosse, rangidos de dentes,
inapetência ou decúbitos permanentes. Nesses
casos, podem ser encontrados em esfregados de órgãos
lesados, espécimens do parasita, que se cora
de forma negativa pelo Método de Gram.
Em
gatos, além da febre, tosse, tumefações
ganglionares e mesmo encefalites, os intestinos apresentam-se
ulcerados e necróticos, e nos pulmões
são encontrados nódulos até do
tamanho de um verme.
Em
animais explorados na produção de peles
como os visões, assim como em cobaias, nos quais
é fácil a introdução do
parasita até pela simples tomada da temperatura
a través do termômetro não haver
sido devidamente desinfetado, a doença se inicia
por apresentarem-se os animais com a pelagem eriçada,
anorexia, esgotamento, paralisias das extremidades e
diarréia.
Os
ratos só com dificuldade se infectam, e só
experimentalmente.
Lebres
e coelhos são infectados com relativa freqüência,
e quando doentes, apresentam-se apáticos, deixando-se
capturar com facilidade. Nestes, em caso da doença
generalizada, os gânglios linfáticos apresentam-se
tumefeitos, assim como o baço; pulmões
edematosos e hiperê-micos, e o fígado semeado
por focos necróticos. Quanto aos sintomas, são
os mesmos observados em cobaios e visões.
Em
aves, principalmente em galinhas, pombos, faisões,
patos e pavões, são dignas de nota as
alterações observáveis no sistema
nervoso central: estupor, apatia e permanente isolamento
de suas companheiras, além de debilidade, movimentos
retrógrados (andar para traz) ou circulares (andam
as aves em círculo) ,transtornos do equilíbrio,
contraturas musculares espasmódicas, caibras,
e tombos ao tentarem se locomover, demonstrando encefalite.
Aliam-se ainda sintomas de gastroenterite, com diarréia,
e mais tarde miocardite e corioretinite. Pelo fato de
existirem nesses casos, pseudo-cistos nos ovários,
há a possibilidade da passagem do parasita aos
ovos das aves. Os sintomas em galinhas, lembram aqueles
que se apresentam na denominada Doença de Marek,
em sua forma paralítica, diferenciando-se desta
pela presença no cérebro dos pseudo-cistos
da toxoplasmose.
A
infeção humana, quase sempre tem início
após o parto, ou seja é congênita
(pré-natal)para o bebe ainda em sua vida intra
uterina, que se infecta pela mãe quando esta
é acometida da doença durante a gestação.
A
gravidez da mulher, é seguramente a situação
em que mais tem sido a doença estudada, já
que por sua gravidade é a situação
que mais preocupa clínicos, parteiros e epidemiologistas.
Duas
situações se apresentam:
1
- Gravidez em uma mulher SEM infeção
toxoplasmática prévia;
2 - Gravidez em uma mulher COM infeção
toxoplasmática prévia.
Na
primeira situação, tendo a mulher gestante,
em algum momento da gestação contagio pelo
toxoplasma, se não tratada oportunamente, tem possibilidade
de transmitir a infeção ao feto.
Já
com respeito à segunda situação,
há controvérsia da possibilidade de uma
mãe com toxoplasmose crônico, transmitir
a doença ao feto em formação em seu
próprio organismo, o que só seria possível
a través de sua placenta; Sabin e outros investigadores,
negam tal possibilidade.
A
maioria dos pesquisadores afirmam ser condição
necessária para a contaminação do
feto durante a gestação, que a infeção
da mãe ocorra em algum momento do seu período
de gestação.
Conclusão:
Em toda mulher grávida ,é obrigatório
o teste correspondente; Caso seja NEGATIVO, o que é
indicativo da futura mãe não estar infectada,
porém poderá sê-lo durante a gestação,
é recomendável que realize novos testes
durante sua futura gravidez, aos 3,5,7 meses, e no momento
do parto, e nestes casos, sendo tal teste POSITIVO, imediato
tratamento; Caso o teste seja POSITIVO, quando realizado
o teste antes da gravidez, revelando ser a mesma uma doente
crônica assintomática, é pouco provável
o aparecimento de uma toxoplasmose congênita para
o bebe.
A
resposta imunológica primária, que é
aquela que aparece numa infeção recente,
cronologicamente se caracterizando porque os primeiros
anticorpos, sejam eles aglutinantes, líticos, ou
fixadores do complemento, formam parte da chamada imuno-globulinas
M (IgM), de elevado peso molecular (19 S); Posteriormente
tais anticorpos são substituídos por anticorpos
denominados de IgG, de baixo peso molecular (7S),o que
só ocorre tardiamente.
Tem
importância saber-se se o indivíduo reagente
positivo é de infeção recente ou
não, devido ao fato da doença em gestantes
se revestir de especial gravidade para o feto, no caso
da infeção haver tido início durante
a gravidez, quando o feto se torna particularmente suscetível
a se contagiar do mal, caso a gestante não seja
tratada. Já quando a mãe contraiu a doença
muito antes da gestação, o perigo para o
feto é quase nulo, constituindo-se o risco apenas
à própria gestante.
Para
o diagnóstico da doença, as provas sorológicas
são especialmente úteis, existindo cerca
de sete provas distintas, as quais servem não apenas
para seu diagnóstico como para precisar o tempo
da infeção e sua fase atual.
Para
tratamento de enfermos existem medicamentos específicos,
entre os quais as pirimetaminas e mesmo alguns corticoides.
Já
para prevenção, não foram ainda conseguidas
vacinas eficientes, sendo a profilaxia do mal, baseada
em medidas higiênicas, particularmente em se tratando
de felinos como o gato doméstico, que merece especial
cuidado quando em contato com gestantes.
Dr.
Carmello Liberato Thadei
M édico veterinário - crmv-sp-0442