ZOONOSES
ENDOPARASITÁRIAS DE RÉPTEIS
Carlos
Alexandre Pessoa
Médico Veterinário
Nos últimos anos, a
utilização de animais silvestres como animais
de estimação cresceu consideravelmente, mas
infelizmente, muitos desses animais têm pouca longevidade
em cativeiro, devido à falta de informações
básicas relacionadas ao manejo. A ausência
deste conhecimento indispensável à vida, provoca
queda de resistência nos animais, promove desequilíbrio
orgânico e propicia o desencadeamento ou estabelecimento
de doenças virais, bacterianas, nutricionais e principalmente
zoonoses, as quais são patologias de animais vertebrados
que podem ser transmitidas ao homem, como por exemplo, a
raiva, a toxoplasmose, a leptospirose, entre outras.
A
introdução de um animal silvestre ao ambiente
doméstico e pode ocasionar um problema de saúde
pública, caso não sejam adotadas medidas profiláticas.
Comenta-se
muito sobre a salmonelose que é uma zoonose de extrema
importância podendo ser até fatal em crianças,
mas esquece-se de outras patologias, que ao meu ver, também
merecem respeito de nossa parte. Pretendo por meio deste
texto não gerar polêmica, mas sim elucidar
um aspecto tão pouco explorado mas muito importante:
os endoparasitas com potencial zoonótico em répteis.
Várias
espécies de répteis, são comercializadas
muitas vezes de forma ilegal, para serem utilizadas como
animais de estimação. Estes répteis
podem apresentar agentes patogênicos zoonóticos
como endoparasitas do gênero Cryptosporidium ssp,
Spirometra europeae, Spirometra mansonoides
entre outros. Citarei de forma sucinta alguns destes agentes.
A
criptosporidiose, causada por Cryptosporidium parvum,
é reconhecida mundialmente como uma zoonose emergente,
causando diarréia aguda em seres humanos imunocompetentes
ou enfermidade fatal em indivíduos imunocomprometidos
ou imunosuprimidos, como portadores de HIV. A transmissão
do C. pauvum, ocorre pela ingestão de água
contaminada, recreações aquáticas em
áreas abertas ou fechadas, e água municipal
(hidrantes contra incêndio). O parasita não
é espécie-específico e pode ser facilmente
transmitido de um mamífero para outro, ou de um animal
para o homem. Este parasita foi isolado em muitos hospedeiros
diferentes, incluindo mamíferos, aves e répteis.
Não há evidências documentadas de que
a criptosporidiose de répteis seja uma zoonose citam
alguns autores. O diagnóstico é difícil
e requer identificação diminuta, do indistinto
oocisto nas fezes. A biópsia gástrica e o
exame histológico de amostra tecidual, nem sempre
são suficientes para diagnosticar a criptosporidiose
subclínica. Usualmente realiza-se a identificação
do estágio de transmissão do patógeno
(oocistos) nas fezes. A criptosporidiose clínica,
pode ser diagnosticada, pela identificação
de oocistos em materias derivados do trato digestivo (fezes,
alimento regurgitado, ou secreções das mucosas).
A
infecção por Gnathostoma spinigerum
no homem ocorre somente pelo consumo do alimento cru ou
mal cozido de hospedeiros intermediários infectados.
Durante o período de 1942 à 1947, 17 novos
casos foram relatados em siameses acometidos por gnathostomíase,
2 homens e 15 mulheres. Um paciente do sexo masculino, de
57 anos de idade, ingeriu alguns pedaços de carne
crua da serpente (Agkistrodon halys) capturada em
uma área local. Uma semana depois, desenvolveu dor
abdominal severa. Os exames laboratoriais diagnosticaram
gnathostomíase.
Os
artrópodes da classe Pentastomida são endoparasitas
invertebrados na sua forma adulta, habitando os pulmões
dos répteis e aves, e a nasofaringe de mamíferos,
que raramente acometem o homem. No entanto, o número
de notificações têm aumentado consideravelmente.
As lesões causadas nas serpentes pelo estágio
adulto ou larval do pentastomídeo não são
bem compreendidos. Os pentastomídeos adultos são
geralmente encontrados nos pulmões dos répteis
e, espécimes sexualmente maduros, são regularmente
encontrados sob a derme, exatamente sob as escamas. Muitos
casos de pentastomíase são associados com
outras doenças como infecções, parasitismo
e má nutrição o que dificulta o diagnóstico.
Em autópsias realizadas em aborígenes malasianos,
foram encontradas infecções por pentastomídeos
em 45,4% dos adultos. Existem dois possíveis mecanismos
de transmissão para a infecção destes
aborígenes por pentastomídeos. Uma é
a ingestão de água de rios contaminada com
secreções nasais de répteis infectados.
A outra é por ingestão do réptil (no
caso estudado serpente) inadequadamente preparada.
Uma
infecção fatal humana com mesocercária
de Alaria americana foi descrita em 1975. Foi estimado
mais de mil mesocercárias presentes na cavidade peritonial,
brônquios, cérebro, coração,
rins, fígado, pulmões, nodos linfáticos,
pâncreas, tecido adiposo retroperitonial, baço,
medula espinhal e estômago. Nove dias após
o início da sintomatologia, o paciente foi à
óbito por asfixia, devido extensa hemorragia pulmonar,
provavelmente causada por mecanismos imunomediados.
Alguns
plerocercóides, considerados agentes zoonóticos
pertencem ao gênero de Spirometra e algumas
vezes são chamados de Sparganum. Há três
espécies de importância médica: Spirometra
mansoni, Spirometra erinacei europaei e Spirometra
mansonoides. É um cestódeo amplamente
distribuído em diferentes espécies de serpentes,
as quais servem de hospedeiro intermediário ou hospedeiro
paratênico. Spirometra de babuínos africanos
são também encontrados no homem. Em 1933 foi
descoberta a Spirometra mansonoides em gatos, ainda
presente em cerca de 3% de gatos locais, e a larva é
comum em serpentes aquáticas locais.
Como
no caso dos animais domésticos, um bom profissional
pode realizar um exame clínico detalhado e, se achar
necessário, solicitar os devidos exames laboratoriais
para um diagnóstico preciso de doença.
Uma
coisa importante: NÃO SE DESESPERE COM ESTAS INFORMAÇÕES,
apenas procure um médico veterinário para
um bom exame clínico e laboratorial (protoparasitológico
de fezes) para certificar-se de que seu amiguinho
está ótimo! A mesma recomendação
vale para os animais domésticos, os quais também
possuem endoparasitas de potencial zoonótico.
Carlos
Alexandre Pessoa
Médico Veterinário
- CRMV/SP: 8621 - São Paulo - SP