É
do conhecimento geral que os morcegos hematófagos
encontrando-se contaminados podem transmitir a Raiva como
qualquer mamífero, porém, tendo-se em vista
as ocorrências noticiadas pela imprensa de S. Paulo,
de haverem sido capturados alguns morcegos frugívoros
que estavam infectados pelo vírus Rábico,
vem a pergunta:
Como
se infectaram com o vírus Rábico esses morcegos
comedores de frutas?
Essa
pergunta foi formulada por meu próprio filho, assim
como alguns amigos que também não encontraram
explicação plausível para a ocorrência.
Com
o fito de responder a essa pergunta, e baseando-me em
conhecimentos científicos sedimentados até
esta data, vou tentar traçar uma linha de raciocínio
para essa ocorrência, porém, desde já
peço um pouco de paciência àqueles
que estiverem me lendo, pois serei obrigado a narrar alguns
fatos já devidamente comprovados a respeito da
Raiva e sua transmissão a través da mordedura
de animais que estejam contaminados com o vírus
rábico.
Desde
os tempos de Luiz Pasteur, que foi o cientista que mais
pesquisou a respeito da Raiva até esta data, sabe-se
com base nas suas pesquisas que o vírus rábico
por razões que lhe são peculiares, encontra-se
concentrado na saliva dos animais que estiverem contaminados
por essa doença. Sabe-se também, a partir
dos trabalhos efetuados por um cientista Brasileiro, o
médico veterinário gaúcho Silvio
Torres, que o morcego hematófago (Desmodus rotundus),
também pode se contaminar com o vírus da
raiva, e vindo a sugar sangue de outro animal mamífero
ou do próprio homem, também pode funcionar
como vetor e transmissor dessa terrível doença.
É essa espécie de morcego no Brasil, a maior
responsável pela transmissão dessa virose
aos animais das espécies bovina e eqüina,
principalmente nas regiões mais recentemente desbravadas
do nosso interior, como tem sido noticiado casos de raiva
que vem ocorrendo nos estados de Mato Grosso do Sul ,
Goiás e Rondônia.
Tanto
o morcego sugador de sangue (hematófago), como
todas as espécies de morcegos, inclusive aquelas
comedoras de frutas (frugívoras), e mesmo as que
se alimentam de insetos (insetívoras), todas essas
espécies e são só no Brasil mais
de 50, todas tem o hábito de viverem em grupos,
por isso chamadas de gregárias, e além disso,
cultivam um hábito que lhes é peculiar,
tal seja, costumam lamberem-se uns aos outros. Por terem
a visão bastante deficiente, havendo mesmo a hipótese
de serem completamente cegos, possuem um órgão
próprio que substituí a visão, e
que funciona como se fosse um aparelho de radar. Há
quem diga até, ter o homem neles se inspirado para
essa descoberta, ou invenção.
Como
fazem os morcegos para se orientarem, já que não
dispõem da visão?
Quando
em vôo, ou mesmo quando se encontram imóveis
pendurados no interior de cavernas ou lugares escuros
para os quais tem preferência de se alojarem, costumam
os morcegos emitirem verdadeiros guinchos, e para tal
fazem vibrar suas cordas vocais, e para emissão
desses guinchos, por assim dizer cospem junto com a emissão
desses sons estridentes no próprio ar atmosférico.
Tais ondas (guinchos), por se encontrarem num espectro
diferente das ondas sonoras propagam-se pelo ambiente
onde se encontram os morcegos, e ao encontrarem qualquer
obstáculo, sofrem o fenômeno chamado de reflexão,
ou seja, voltam em sentido contrário, agora em
direção ao próprio morcego que emitiu
tal guincho. Possuem os morcegos, alojados nas suas orelhas,
um órgão que funciona como antena receptora
dessas ondas refletidas, que por sua vez não apenas
captam referidas ondas como também permitem ao
morcego saber encontrar-se a sua frente e a uma determinada
distância, um objeto que refletiu aquele seu guincho.
É o mesmo mecanismo utilizado nos aparelhos de
radar, para localização de objetos capazes
de refletirem ondas de determinada freqüências,
estas denominadas de radar. É necessário
que se frise serem esses guinchos emitidos numa freqüência
diferente daquela das ondas sonoras (audiofrequência),
e por isso não audíveis por nós humanos,
porém apenas pelos próprios morcegos, havendo
eu me utilizado do verbo ouvir apenas para ser melhor
compreendido, já que não são freqüências
audíveis pelo homem, como o são também
aquelas do aparelho de radar.
Esses
fatos do conhecimento geral e devidamente comprovados
pelas ciências físicas e biológicas,
permitem então uma explicação cabal
da pergunta inicial deste texto.
Um
determinado morcego hematófago (sugador de sangue),
que tenha se alimentado sugando sangue de um animal bovino
ou eqüino contaminado pelo vírus rábico,
virá fatalmente também a contaminar-se e
adoecer de Raiva. Voltando após esse repasto sangüíneo
ao convívio de outros morcegos, quer sejam estes
hematófagos ou não, porém alojados
numa determinada caverna, virá contaminar os demais
morcegos, quer pelo próprio habito de lamberem-se
entre si, quer pela emissão de seus guinchos no
ambiente das cavernas, e junto com esses guinchos também
saliva, e esta saliva no caso contaminada por vírus
rábico, já que agora encontram-se contaminados
pela Raiva . O ar atmosférico dessas cavernas ficará
portanto impregnada de um verdadeiro aerossol contendo
além de ar e umidade também vírus
rábico, este o responsável pela propagação
da doença a outros animais suscetíveis de
se contaminarem, desde que respirem tal ar. Não
recebendo Sol diretamente, esse ar atmosférico
dessas cavernas tem um período maior de infectibilidade,
possibilitando contaminação por lapso de
tempo maior que em um ambiente normal.
Comprova
a possibilidade de animais suscetíveis se contaminarem
apenas respirando esse ar impregnado de vírus rábico,
uma experiência efetuada nos Estados Unidos, onde
foram colocados diversos animais tais como raposa, cachorro,
gato e outros animais mamíferos, alojados em gaiolas
cujas malhas não permitiam tanto o ingresso de
morcegos no interior dessas gaiolas, como mesmo terem
possibilidade de sugarem sangue desses animais aprisionados.
Sabia-se previamente, encontrarem-se nessa caverna alojados
morcegos contaminados pelo vírus rábico.
Ao fim de alguns dias, esses animais alojados em gaiolas
vieram a apresentar os sintomas característicos
dessa doença e após suas mortes, os exames
realizados em seus sistemas nervosos comprovou terem todos
morrido por haverem se contaminado com o vírus
rábico, no caso, portanto apenas possível
se tal contaminação tivera sido através
do ar atmosférico.
Esperando
haver achado a explicação plausível
para a ocorrência, ponho-me a disposição
para algum esclarecimento complementar a respeito do fato,
o que poderá ser feito a través da revista
Saúde Animal.
Dr.
Carmello Liberato Thadei - Médico Veterinário - CRMV-SP-0442
São
José do Rio Preto - SP