INTRODUÇÃO
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A microchipagem de animais no Brasil é uma atividade recente e sua obrigatoriedade
no tocante a determinadas espécies de animais silvestres nascidos em cativeiro,
cujo objetivo seja comercial, a torna um elemento de poucos parâmetros tanto
à nível de escolha mais adequada do local do implante do transponder, como também
dos possíveis problemas gerados pela sua má colocação ou contaminação.
O comércio legalizado de animais silvestres
nascidos em cativeiro é uma atividade muito difundida em diversos países, que
gera milhões de dólares e uma gama gigantesca de profissionais envolvidos em
todo o suporte técnico. Cada país possui uma legislação específica que regulamenta
a criação e o comércio. A legislação brasileira que permite a criação comercial
e a venda de exemplares considerados "silvestres", esta prevista em
duas portarias do IBAMA
(INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS).
No caso de répteis o único sistema possível,
à exceção aos quelônios aquáticos de médio e grande porte que utilizam lacres
presos às nadadeiras, é o transponder ou "microchip". Cada "microchip"
possui um número específico que é gravado no momento de sua fabricação. Esta numeração é inviolável e imutável. Resumidamente o microchip nada mais é que um circuito de computador
medindo 11,2 mm de comprimento por 1,2 mm de circunferência, o qual é implantado
com auxílio de agulha hipodérmica, sendo de material inerte e biocompatível,
funciona como uma antena que ao receber uma quantidade de ondas de rádio geradas
por um sensor específico conhecido como leitor, "reflete" informações
pré-determinadas na sua confecção.
A exigência de um sistema individual de marcação é restrito à legislação
brasileira. Uma das razões de sua não obrigatoriedade em outros países é que,
dependendo da espécie, ela simplesmente torna inviável o implante e o próprio
comércio em si. Devemos ter em mente que o principal alvo do comércio de qualquer
espécie, tanto à nível comercial quanto de aquisição, é evidentemente a procura
por filhotes. Nos anfíbios é impossível a marcação de filhotes e no caso dos
répteis, tema aqui abordado, o implante do "microchip" fica limitado
a determinadas espécies e consequentemente a um tamanho específico, muitas vezes
inviável a filhotes com menos de uma ano de vida.
O presente artigo descreve dois casos clínicos
provindos de um montante de 450 unidades de jabutis da espécie Geochelone carbonaria que foram comercializados
ao longo de um ano. Destes cerca de 2 a 3% dos indivíduos manifestaram problemas
posteriores oriundos da microchipagem.
A segurança, eficácia e utilização
do transponder não é aqui discutida pois sua excelente capacidade de individualização
(leitura da numeração) e baixíssimos riscos de rejeição por si só revelam seus
benefícios. Apresentamos alguns quadros clínicos decorrentes de contaminação,
possivelmente ocorridos durante ou imediatamente após o implante destes microchips.
Em nossa casuística no recebimento destes animais de criadores autorizados, verificamos problemas relacionados na microchipagem como abcesso e exudato caseoso no local do implante do microchip, hiporexia e nos casos mais severos anorexia e pneumopatia secundária diagnosticada pela sintomatologia clínica confirmada por imagem radiográfica e cultura das secreções. Como a utilização de "microchip" em filhotes de répteis é pouco utilizada em outros países, a atual legislação brasileira transformou o
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mercado de
animais silvestres num grande laboratório experimental. Pouco sabe-se sobre
as possibilidades de migração ou de possíveis futuros comprometimentos decorrentes
do implante em animais tão diminutos. Com certeza o principal problema não reside
no transponder em si, uma vez que é biocompatível e sem sinais de rejeição,
mas sim nas dificuldades de seu implante e nos riscos de contaminação no primeiros
dias após seu recebimento.
MATERIAIS E MÉTODOS
Foram utilizados 3 animais , os quais denominaremos de paciente A, B
e C com idade aproximada de 1 ano. Os
animais em estudo pertencem ao gênero Geochelone
carbonaria. Os pacientes pesaram entre 54 gramas e 67 gramas.
Cada paciente foi examinado minuciosamente sendo que o paciente A apresentava-se
anorético, prostrado, secreção nasal bilateral mucosa, secreção ocular bilateral
mucosa com os olhos cerrados, emaciado e abscesso caseoso em região inguinal
esquerda.
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Os pacientes B e C apresentavam-se ativos, hiporéticos, ligeiramente
emaciados e abscesso caseoso em região inguinal esquerda.
Os pacientes foram submetidos a cultura para fungos, cultura para bactérias
e antibiograma das secreções.
PREPARAÇÃO DOS ANIMAIS
Das lesões observadas na pele foram coletadas amostras com auxílio de
swab estéril e em seguida semeadas em meio ÁGAR-SANGUE e MACONQUI para observação
de crescimento bacteriano.
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RESULTADOS
MATERIAL:
secreção pele
Paciente A: Proteus
sp e Escherichia coli Paciente B: Staphylococcus epidermidis e Corynebacterium
sp
Paciente C: Escherichia coli
ANTIBIOGRAMA / TABELA:
|
|
|
A1 |
A2 |
B1 |
B2 |
C |
| Amicacina | S | S | S | S | S | |
|
|
Amoxicilina e Ac. Clavulônico |
N |
N |
S |
S |
S |
|
Ampicilina |
R |
R |
S |
S |
S |
|
|
Ceftiofur |
S |
S |
S |
S |
S |
|
|
Cefalexina |
N |
N |
S |
S |
S |
|
|
Cefalotina |
N |
N |
S |
S |
S |
|
|
Cefotaxime |
S |
S |
N |
N |
N |
|
|
Cefadroxil |
R |
R |
N |
N |
N |
|
|
Cloranfenicol |
S |
S |
S |
S |
R |
|
|
Doxiciclina |
S |
N |
N |
N |
R |
|
|
Enrofloxacina |
S |
S |
S |
S |
S |
|
|
Gentamicina |
S |
S |
S |
S |
S |
|
|
Neomicina |
S |
R |
S |
S |
S |
|
|
Norfloxacin |
S |
S |
S |
S |
S |
|
|
Penicilina G |
N |
N |
S |
S |
R |
|
|
Polimixina B |
R |
S |
S |
S |
N |
|
|
Sulfametoxazol e Trimetoprim |
S |
R |
S |
S |
S |
|
|
Tetraciclina |
S |
R |
S |
S |
R |
A1= paciente A / Proteus
sp
A2= paciente A / Escherichia
coli
B1= paciente B / Staphylococcus
epidermidis
B2= paciente B / Corynebacterium
sp
C= paciente
C / Escherichia coli
S= Sensível
R= Resistente
N= Não testado
O resultado
das culturas para fungos foram negativas.
CONCLUSÃO
Os resultados apresentados demonstram uma grande variedade de bactérias
patogênicas acometendo o local de implante do transponder. O crescimento destas
bactérias nos meios de cultivos apropriados sugerem contaminação intensa no
local da implantação do microchip provavelmente devido a ausência de condições
higiênicas básicas requeridas para qualquer procedimento invasivo. Devemos lembrar
que Répteis são
animais rastejantes e esta proximidade ao solo, tornam extremamente problemáticos
as medidas profiláticas de contaminação pós-implante, uma vez que defecam e
urinam, muitas vezes, sem sair do lugar, contaminando facilmente toda a área.
A ausência de trabalhos específicos nesta área, razão pela qual não
apresentamos referências bibliográficas, refletem que em muitos casos a grande
quantidade de bactérias patogênicas encontradas no local da implantação do transponder,
microchipagem em locais inadequados e a utilização de técnicas inadequadas anti-sépticas
ou até mesmo a não utilização das mesmas na região escolhida, pode dever-se
ao simples fato do desconhecimento de normas ou regras básicas para a implantação
deste meio de identificação tão importante e acessível aos médicos veterinários
e criadores autorizados pelo IBAMA.
Carlos
Alexandre Pessoa
Médico Veterinário - CRMV/SP: 8621
www.animalexotico.com.br
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