Dono
neurótico - Cão nervoso
Estudando
a história européia é possível
observar que os animais de estimação
tinham profunda relação com a posição
social de seus donos. A um plebeu não era permitido
possuir um animal apenas por estimação,
pois ele não tinha condições
de alimentar um animal que produzisse nada. Os animais
de estimação só podiam pertencer
à aristocracia.
Atualmente
as pessoas possuem animais de estimação,
especialmente cães, por diversas razões,
porém o "status "continua a ser uma
delas. O cão representa para seu dono a admissão
a um grupo de elite de "proprietários
de cães " e, para muitos, uma projeção
freudiana de seu próprio ego. Muitos cães
atendem aos desejos frustrados de seus donos, representando
poder, agressão, liberdade sexual, virilidade.
Um cão feroz reforça a confiança
de seu dono como o faria qualquer outra arma.
Um
cão em casa significa para muitos de nós
a sensação de ter alguém de confiança
a nos esperar, que nos aceita e confia em nós.
Um cão pode ser um confidente para uma pessoa
solitária. Muitos psicólogos e terapeutas
estão usando cães nos hospitais para
facilitar o relacionamento do paciente com a família
e com os médicos.
Para
atender a estas necessidades, o homem moldou fortemente
o cão à sua própria imagem. Cruzou
seletivamente cães com aparência frágil
e infantil que apelam para o instinto maternal das
pessoas. Muitas raças apresentam o "síndrome
de Peter Pan ", permanecendo infantis e dependentes
a vida toda. Outros estão sendo transformados
em verdadeiras "máquinas de destruição
", reflexo evidente de uma sociedade altamente
agressiva.
Abruptamente,
com uma rapidez exagerada, em comparação
com a velocidade normal com que a evolução
ocorre na natureza, estamos exigindo que os cães
deixem de ser caçadores e protetores corajosos
e equilibrados para se tornarem, de um lado, animais
dóceis, dispostos a aceitar qualquer pessoa
estranha, tolerar crianças e ignorar gatos
e, de outro lado, animais extremamente agressivos,
capazes de atacar e matar qualquer um que lhe apareça
à frente.
Depois
de termos selecionado geneticamente os cães
para terem maturidade sexual precoce ( as fêmeas
de lobos têm seu primeiro cio após os
dois anos ) para facilitar a seleção
da espécie, exigimos deles que vivam uma vida
de quase total celibato. Têm que permanecer
indiferentes aos excitantes odores de dezenas de cadelas
no cio, morando pela vizinhança.
A
obsessão por exposições caninas,
a longo prazo, tem resultado em alterações
genéticas prejudiciais a muitas raças.
Os cruzamentos consaguíneos para a obtenção
de características exageradas como por exemplo
focinhos muito achatados, pernas muito curtas, joelhos
muito angulados, etc, favorecem um aumento na frequência
de mutações como agnatismo, calcificação
intervertebral, displasia coxo-femural, etc. Nas exposições,
vemos Beagles, Retriervers, Setters, tão graciosos
nas pistas permanecendo imóveis por
horas, como verdadeiros mortos-vivos que nem
lembramos que cães assim nunca poderiam ser
usados em campo, contradizendo sua principal aptidão.
Os cães domésticos estão perdendo
o vigor físico e moral que já tiveram.
As
pessoas que trabalham fora durante o dia todo, impõem
uma carga de stress a seus animais de estimação.
O cão que foi selecionado geneticamente para
precisar de companhia é então abandonado
durante a maior parte do tempo. A reação
mais comum é a destruição de
objetos domésticos como móveis, roupas
sapatos. Quando o dono chega em casa, o cão
solitário pode reagir de modo exagerado, pulando
, correndo de um aposento a outro, urinando de modo
incontrolável. Há também o número
crescente de animais que se auto-mutilam, lambendo
e mordendo seus próprios membros.
O
tédio do confinamento imposto pelo homem pode
pesar muito sobre os cães. Um meio de amenizar
o isolamento de cães solitários é
lhe proporcionar a companhia de outro animal, mesmo
que de outra espécie. Quando os cães
têm companhia, o tamanho do espaço em
que vivem parece tornar-se menos importante.
Um
das mais tristes alterações comportamentais
induzidas pelo homem ao cão é a "canilose
", que se desenvolve quando o filhote é
mantido isolado e sem estímulos durante a fase
de socialização. Dos 30 aos 60 dias
de vida, é fundamental que o filhote tenha
contato com pessoas diferentes e com outros cães
e até com outros animais, para que receba diferentes
estímulos como sons, calor, luz, mordidas,
etc. São estas experiências que tornam
os filhotes adaptáveis e equilibrados. Se,
no entanto, o filhote é separado da ninhada
e da mãe precocemente, ele apresenta no futuro,
distúrbios de comportamento, algumas vezes
irreversíveis. Quando o filhote permanece por
longos períodos expostos em vitrines de lojas,
muitas vezes quando é vendido o dano já
está feito.
É
preciso reconhecer a amplas diferenças de temperamento
entre as diversas raças caninas, para não
errarmos tratando todos os cães da mesma forma.
Para os tímidos como os miniaturas, um olhar
direto ou uma palavra áspera geralmente é
castigo suficiente. O controle excessivamente rígido
pode anular a personalidade de tais cães. Raças
mais independentes como as de caça, exigem
mãos mais firmes. O dono precisa impor limites
com firmeza, justiça e paciência. Rispidez
ou liberalidade excessiva pode resultar em desajuste
social semelhante ao de uma criança totalmente
dependente ou completamente rebelde.
Finalmente,
os cães são afetados não apenas
pelas neuroses individuais, mas também pelas
de toda uma sociedade. Muitas pessoas hesitam em histerelizar
seus animais devido a grande identificação
que existe entre o dono e seu animal de estimação.
Homens e mulheres tendem a sentir como se estivessem
castrando a si mesmos quando levam seus cães
para serem operados.
Como
o homem vem submetendo os cães drasticamente
as suas próprias necessidades é justo
que ele aprenda a prevenir e combater muitas das neuroses
que se tornaram tão comuns. O melhor seria
que antes de adquirir um animal para estimação,
o homem fizesse uma avaliação de seus
próprios hábitos de vida e que procurasse
escolher a raça canina com melhores chances
de se adaptar a tais hábitos, em vez de se
levar por modismos e aparências .Vale lembrar
que tomar conhecimento sobre como lidar e educar a
raça escolhida também são fatores
importantíssimos para que a convivência
dê certo.Com certeza isto diminuiria o número
de acidentes com cães e também o abandono
de animais nas ruas.
Dra.
Marília Russi de Carvalho
Médica veterinária CRMV-SP 3652
Proprietária do canil Sema Beagles
www.semabeagles.com.br
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