Um caso clínico Veterinário na Visão Antroposófica
I.
INTRODUÇÃO
A discussão sobre a definição e descrição de osteomielite é bastante clara quando da análise da própria terminologia.
Como todo raciocínio guiado por conceituação se submete a ela, o termo
utilizado deve ser rediscutido pois ele pretende
reconhecer o processo que se inicia do periósteo
à medula.
A grande maioria dos autores descreve o processo como infeccioso conseqüente
a traumas, por solução de continuidade ou secundariamente
às intervenções cirúrgicas.
A visão fisiopatológica do início do processo no sentido medula/córtex
começou a ser reconhecida na pediatria veterinária,
em decorrência de processos infecciosos em neonatos
nos quais os microorganismos encontram meio ambiente
favorável na medula diafisária dos ossos longos.
Uma circulação “Portal” e o substrato sinovial garantem
essa predileção.
O caso clínico aqui colocado é bastante oportuno à reflexões tais como:
I.1.
Um relato clínico Veterinário deve estimular a Revisão
de Conceitos errôneos pré-existentes de uma relação
hierárquica entre seres humanos e animais.
GUDRUN
KRÖKEL BURKHARD cita em seu livro “Novos
Caminhos de Alimentação” (vol. 1, ed. CLR Balieiro)
no capítulo 1 entitulado de “a situação da natureza até os dias de hoje.”
...
“É o EU que faz com que o ser humano, além da consciência,
também tenha autoconsciência, de modo que ele não
age apenas para satisfazer seus instintos mas de
acordo com atos coletivos conscientes.”
...”Poderíamos
dizem então, que não somente o reino animal, mas
o vegetal e mineral ficaram para trás como resquícios
de estágios da evolução humana e que consolidaram
em suas formas.”
Em contrapartida há indivíduos da espécie humana que revisam essa questão, utilizando os atributos
e responsabilidades que lhe foram doadas pela vida:
tornam a iniciativa muito mais do domínio da situação
que o domínio da própria natureza.
“No
que concerne o homem, Cuvier (Geoge Cuvier, 1769-1932),
anatomista francês) aceitou o pronunciamento cartesiano
de que o homem é qualitativamente diferente dos
outros animais. Mas ao contrário de Aritósteles
e dos primeiros anatomistas, ele rejeitou a idéia
de que zoologia
consistia na comparação do animal “degradado” com
o homem “perfeito”- Ernst Mayr, the Growth of Biological
Thought.
“A
afirmação – ou melhor, a demonstração científica
que o homem não foi uma criação separada [de Deus]
mas uma parte do mundo animal criou um tremendo
rebuliço. Isto entrava em conflito com a Igreja
Cristã e até com o dogma da maioria das escolas
filosóficas. [Darwin] encerrou a visão antropocentrista
do mundo e iniciou uma reorientação da posição do
homem na natureza”- Ernst Mayr, professor de Zoologia,
emeritus, da Universidade de Harvard.
“Na
ciência contemporânea nenhum cientista sério aceita
uma diferença qualitativa entre o homem e os animais
– a distinção zoológica é de grau e não de qualidade”-
Stephen Jay Gould, professor de geologia, biologia
e história, pela Universidade de Harvard.
“Não
existe o “mundo humano”, o mundo é um meio ambiente
ecológico onde todas as espécies devem interagir,
ou pagar pela sua insensatez – e a pena máxima é
a extinção”- Bjark Rink.
I.2.
O caso clínico teve uma fonte de compreensão etiológica
e fisiopatológica mais ampla e livre permitindo
um diagnóstico e tratamentos de visão orgânica sistêmica,
com o qual atribuo todo o sucesso do mesmo.
I.3. Que o estudo da medicina Veterinária através
da antropologia (Anthropus
= Homem e Sophia = Sabedoria; é uma estudo do
homem sobre si mesmo e sobre suas relações com o
universo), seja entendido como referência e fonte
de inspiração para elucidação de situações de desconforto
físico, anímico ou espiritual da humanidade. Como
uma retomada da posição humana frente a natureza.
II
– DESCRIÇÃO DO CASO
II.1.
Paciente
Espécie: Eqüina
Nome: Nepal
Raça: Mangalarga Manchadon
Sexo: Masculino
Idade: 07 Anos
q Exame clínico inicial: 27/05/99
Claudicação evidente do membro anterior esquerdo com sinais de inflamação
e sensibilidade acentuadas na região da canela [porção distal, face lateral , do osso metacarpiano
(para a espécie se denomina matacarpiano principal
) sem solução de continuidade, sugestiva de causa
traumática ].
Medicação
de apoio imediato – infiltração subcutânea local:
Arnica Montana D20.
q Exame radiográfico: 02/06/99
Imagem característica de Osteomielite na face lateral da diáfise distal
do osso metacarpiano principal.
q Tratamento: 02/06/99 a 17/06/99
A) Injetável:
A.1)
Sistêmico (via subcutânea): Arnica Montana D20*
(02 ampolas) associado a Silícea D60*
(02 ampolas) em dias alternados.
A.2)
Loco-regional (via subcutânea): Arnica Montana D20
(01 ampola) associado a Silícea D60*
(01 ampola) em duas aplicações com intervalo de
07 (sete) dias.
B) Via oral:
Calcária
fluórica 30c** , 02
(duas) vezes
ao dia, durante sete dias.
q Acompanhamento Clínico
·
Ausência
total de sinais clínicos após o tratamento.
·
As radiografias
de controle (08/07/99) evidenciaram correta e completa
regeneração, comprovando a eficácia do tratamento
proposto.
·
Em seguida
o paciente retornou suas atividades atléticas de
rotina.
III
– SOBRE
OS MEDICAMENTOS UTILIZADOS
“Para
compreender o efeito de um medicamento, precisamos
do conhecimento de sua natureza. Dele resulta a
indicação terapêutica, devendo o quadro de sua natureza
corresponder ao quadro mórbido.” Otto Wolff.
Guiado pela riqueza de informações e elucidações sobre a Silícea e
a Arnica dos médicos Otto Wolff e José Roberto Lazzaniri
Neves através de matérias na Revista Médico-Farmacêutica
nº 2, Maio/97 e Arte Médica Ampliada nº 2, inverno
de 99 respectivamente, pude reconhecer a estreita
identidade entre Arnica e Silícea e as quais comentarei
a seguir:
III.1. Sobre a Arnica
A Arnica também é uma planta silícica que dirige o efeito da silícea
no sentido do sistema nervoso.
Comentários:
Neste sentido presumo que a Arnica estenda seu efeito
analgésico elevando o limiar da dor, proporcionando
ao paciente uma sensação de tranqüilidade e retomada
de segurança frente ao receio do sintoma.
Levar processos formadores ao metabolismo, e processos metabólicos
construtores ao domínio dos nervos.
A sílica é encontrada na natureza de várias formas. A opala, a ágata
e o quartzo são três etapas da aparição desse elemento
químico no reino mineral. Etapas que vão desde formas
coloidais plásticas (opala) até formas bem estruturadas
(quartzo). Essa propriedade permite que a sílica
acompanhe a matéria viva desde as formas mais amorfas
até as mais diferenciadas.
A Sílica da Arnica se encontra nesse estado plástico inicial. Em lugar
algum ela elabora formas rígidas acabadas. Ela permanece
ao nível das forças formativas, envolta nos tecidos
vivos, pouco estruturados, tenros.
Por outro lado, a planta é totalmente permeada de influências aromáticas,
ígneas. Isso dá ao medicamento um certa orientação
no sentido da organização do eu. A Arnica introduz
no ser humano um “processo semelhante à organização do Eu”, disse Steiner. E acrescenta:
“Quando vocês
administram uma substância tirada da Arnica montana,
convenientemente dosada, injetável, (as outras vias
não serão tão ativas), vocês constatarão, pelo menos
como regra geral, que o sistema nervoso é fortemente
influenciado. O Tratamento será bem sucedido se
o doente se sentir mais forte e disser que acredita
poder triunfar sozinho sobre os seus problemas.”
·
Usos da Arnica
q Contusões
Analgésico.
A dor revela uma impossibilidade de que os membros
superiores se unam ao corpo físico. a Arnica alivia
a dor por: fortalecer o etérico e por dirigir a
intervenção adequada dos corpos astral e do eu.
q Apresentação
D20,
D20-D30
III.2. Sobre
a Calcárea Fluorica
“Fluoride of Lime. The is prepared
from trituration of the salt and solution in distilled
water.
Crystals of this salt are found in
the Haversian canals of bones. This increases the
hardness of bone and in excess may result In britlleness.
It also occurs In tooth enamel and In the epidermis.
Affinity with all these tissues may lead to the
establishment of exostoses and enlargement of superficial
glands. It is In addition a powerful vascular remedy.
Skeletal System. Bones of the upper
jaw become swollen and In extreme cases become rarefied.
This extends to gums and teeth, the enamel of which
becomes black and brittle. Osseous tumours may appear
anywhere while gouty enlargement of joints occurs
with synovitis.”
III.3. Sobre a Silícea
a)
A sílica
em repouso no mineral já se encontra atuante nos
processos vivos vegetais – por exemplo formando
um suporte, um arcabouço por sua presença na parede
celular, conferindo um caráter ora mais, ora menos
fibroso e também firmeza a um vegetal. Aparece também
na epiderme das plantas, formando uma pelugem fina,
como, por exemplo, na urtiga; assim, além da função
de invólucro ela exerce também a de sustentação.
Comentário:
Essas características se identificam com a relação
estrutural e diferencial entre córtex e periósteo.
b) A sílica aparece na formação das esponjas, com poros que se abrem para
fora, ao contrário das conchas, onde o cálcio forma
uma casca espessa e fechada.
Comentário:
“É muito importante que a matriz óssea tenha mantida
sua integridade estrutural como as conchas, porém
mantendo sua relação dinâmica vital com a medula,
a exemplo das esponjas.
c)
A sílica
permeia quase todos os órgãos e tecidos, principalmente
o conjuntivo, conferindo-lhes uma característica
de forma e de suporte. Já a partir do desenvolvimento
embrionário, o próprio embrião, o âmnio e o cordão
umbilical – ou seja, todos os envoltórios – são
ricos em sílica, indicando a ação de forças formativas
de fora para dentro, estruturando e diferenciando
a substância protéica em várias direções.
Comentário:
Estruturar respeitando a diferenciação é regenerar,
muito mais do que reparar ou cicatrizar.
d) A sílica está presente no sangue numa quantidade constante e individual,
não se alterando com a alimentação. Aí ela se encontra
em sua forma primordial, viva, representada pelo
fibrinogênio, cujas forças formativas atuam quando,
por exemplo, numa lesão do vaso sangüínio o tecido
é reconstituído pela fibrina, que reconstitui a
forma.
Comentário:
Fundamental para a manutenção do estado físico-químico
do conteúdo medular.
e)
Osso (tecido
fibroso) o mecanismo de ação não está muito claro,
mas se efetua profundamente nos ossos e nos tecidos
fibrosos, produzindo supuração e completa destruição
dos ossos, do periósteo e do tecido fibrosos de
qualquer parte do organismo. Causa cáries das difises
ou epífises, com excessivas dores noturnas. Nas
articulações, há edema com completa destruição dos
ligamentos. sua ação é lenta, profunda e crônica,
assemelhando-se aos estados raquíticos e escrofulosos.
a sílica influencia a nutrição mais do que a atividade
funcional dos tecidos e, por isso, causa alterações
mais orgânicas do que funcionais no organismo.
Comentário:
Ação sinérgica da sílica sobre os tecidos adjacentes
como ligamentos, bursa e superfície articulares.
f)
Osteomielite
aguda e crônica, principalmente da tíbia (quando
supuram, a Silicea é o principal medicamento). Abcessos
e fístulas dos músculos e articulações. parariço.
III.4 – Sobre a Calcárea Fluorica
MAVLEOD,
George. MRCVS, DVSM, Vet. FF Hom. A Veterinary Materia Medica and Clinical Repertory
with a Materia Medica of the Nosodes. Ed., Daniel, 1995
CONCLUSÃO
A partir do estudo das manifestações de uma substância na natureza
e de sua atuação patogenética, podemos compreender
a atuação da Silicea, como medicamento homeopático,
tanto no que se refere a sintomas mentais demonstrando
mais uma vez como o ser humano é uma unidade de corpo e mente, e como o medicamento homeopático atua
não sobre as partes, mas sobre o todo.
No caso da Silicea, notamos um tropismo para as afecções da pele, os
anexos, o tecido conjuntivo, o cérebro, os órgãos
sensoriais e o sistema nervoso. Isso aponta suas
características de envoltório, de conferir forma,
sustentação, transparência, permeabilidade, diferenciação
e excreção. Isso também ocorre na esfera mental,
onde a Silicea traz segurança, firmeza e luz.
“Não
existe o “mundo humano”, o mundo é um meio ambiente
ecológico onde todas as espécies devem interagir,
ou pagar pela sua insensatez – e a pena máxima é
a extinção”- Bjark Rink..*
Dr.
Gustavo Braune
Médico Veterinário