O
Killiofilo e o Biotopo
Francisco
Moutinho- piscicultor
Falar sobre Killifishes,
sua distribuição pelo mundo, em nosso
país e estado, a pressão sofrida por
parte de seu maior predador, o homem, é importante
para o conhecimento teórico dos mesmos. Entretanto,
para conhece-los na prática é preciso
estudar seus costumes e aprender a identificar os
locais onde habitam.
Como já foi citado, no Rio de Janeiro os
Killifishes são representados pela família
Rivulidae, e dentro da mesma pelos gêneros
Rivulus e Cynolebias.
Os Rivulus podem ser encontrados em dois tipos de
biótopo.
- MANGUE - estes ambientes se localizam
próximo a orla marítima, e são
constituídos por vegetação
típica de áreas pantanosas, banhadas
por água do mar. São árvores
de pequeno a médio porte que possuem raízes
aéreas. O solo é formado por lama
fina e compacta, de cor marrom escuro a negro, apresentando
uma alta concentração salina.
- RIACHOS - estes ambientes são localizados
em florestas ou em baixadas cobertas por vegetação
de pequeno porte.
Podemos encontrar Rivulus em um terceiro tipo
de biotopo, o qual seja pequenas lagoas perenes,
entretanto, estes peixes provém do transbordamento
de riachos próximo a lagoa, motivo pelo qual
não considerei as mesmas como biótopo
natural.
Na estrada da Barra de Guaratiba (zona oeste) encontramos
algumas áreas de manguezais, nas quais habitam
Rivulus caudomarginatus e Rivulus ocellatus. O primeiro
é encontrado em dois padrões de cor,
azul e vermelho, e o segundo possui uma particularidade
única, que consiste em ser hermafrodita.
Estes ambientes estão sendo destruídos
de diversas maneiras, dentre as quais podemos citar:
1 - A água das marés,
que banha os mangues, traz resíduos de lixo
e esgoto, residencial e industrial, que ao serem
depositados sobre o solo formam uma camada polidora,
que lentamente destroi a cadeia de vida animal e
vegetal existente no mangue.
2 - Os coletores de caranguejos e de madeira
para lenha ou para peças de ornamento, que
além de destruírem a vegetação,
desfiguram o solo ao escavarem as tocas dos caranguejos,
para retirá-los, como também ao arrastarem
sacos contendo os mesmos, e amarrados de lenha colhidos
para os citados fins.
3 - Os aterros clandestinos feitos com o
fim de obter terrenos para construção
de residências, que destroem grande parte
dos mangues, cujo restante é lentamente degradado
pelos novos moradores (o homem).
É importante ressaltar que, as duas primeiras
situações são perfeitamente
reversíveis, se detidas em curto prazo, ao
contrário da terceira, que após perpetuada
(como sugere a ação) torna-se definitiva.
Os ambientes de floresta e de baixada, onde habitam
Rivulus Brasiliensis e Rivulus Santenses respectivamente,
ainda podem ser encontrados em áreas localizadas
distantes dos perímetros urbanos, como Magé,
Nova Iguaçu (interior), Japeri e cercanias
, e próximo a bases das serras de Petrópolis,
Teresópolis e Nova Friburgo. Ao se localizar
um desses biótopos, deve-se ter o cuidado
de não modificar o ambiente, principalmente
preservando a vegetação local, pois
são vulneráveis a mudanças
bruscas e após degradados, dificilmente se
recuperam.
Os biótopos caracterizados como de baixada,
são localizados em áreas normalmente
utilizadas como pastagem de gado bovino, o que traz
grande vantagem com relação ao desenvolvimento
da população, como veremos em oportunidade
propícia, encontrando-se os mesmos na parte
mais baixa (depressão) do terreno, sendo
resultado do acúmulo de água da chuva
e possuindo a maior parte de sua área ocupada
por taboas (Typha sp.), e suas margens são
cobertas de gramíneas. Como exemplo típico
deste conjunto de características, podemos
citar o biótopo localizado em Seropédica
(Itaguaí). Também encontramos estes
ambientes em terrenos mais baixos, que margeiam
algumas rodovias em nosso estado. Como exemplo podemos
citar a rodovia Rio Santos, no trecho compreendido
entre Santa Cruz e Itaguai (zona oeste), na antiga
Rio-São Paulo, na altura do Km 40 logo após
a ponte sobre o rio Guandu, bem como uma infinidade
de outras poças com estas características,
situadas em uma área entre Campo Grande,
Santa Cruz e Itaguai. O biótopo de baixada
é o que mais se aproxima (em características)
aos biótopos de Nothobranchius na África,
caracterizados como biótopos de savana.
Entretanto, esta não é a característica
única de um biótopo de baixada, como
pôde ser observado no biótopo próximo
a Vila de Cava (Nova Iguaçu) que serve de
habitat a uma população de Cynolebias
nanus, cuja vegetação é constituída
de Eleocharis acicularis, Nitella capillaris e gramíneas
submersas. Outrossim, podemos encontrar biótopos
de baixada cuja vegetação predominante
seja constituída por um capim conhecido por
capim navalha, o que caracteriza uma mudança
drástica no solo do mesmo, normalmente representando
um acréscimo acentuado de areia no ambiente.
Porém, isto não impede que no biótopo
exista uma população de killifishes
(Cynolébias) em desenvolvimento. Chamo a
atenção para o risco que corre o pesquisador
desatento, com relação a manusear
uma rede de coleta em meio a essa vegetação,
pois a mesma, como sugere seu nome popular (capim
navalha), poderá produzir cortes em seu corpo
(principalmente nos braços) de considerável
gravidade, Este tipo de biótopo pôde
ser por mim analisado em 1992, quando de sua localização
em Campo Grande (zona oeste), sendo o referido um
exemplo perfeito de adaptação da natureza
as modificações negativas que o homem
impõe a mesma.
Os biótopos caracterizados como de restinga,
estão distribuídos pela região
dos lagos e são habitat de quatro espécies
de Cynolebias, a saber C. citrinipinis, C. constanciae,
C. whitei e C. cruzi. Estes biótopos são
normalmente localizados próximo ao mar, pois
as praias daquela região, quando em estado
natural (livres de habitações), possuem
uma configuração própria a
formação dos mesmos, pois as areias
terminam em leves dunas cobertas com vegetação
típica, possuindo as mesmas outro declive
contrário, terminando em uma baixada que
acompanha toda sua extensão, Nesta baixada
são formadas poças cujo conteúdo
hídrico provém de água da chuva
ou de lençol freático (C. citrinipinis),
apresentando a água uma cor barrenta (água
nova) a ligeiramente escura; o substrato é
formado por areia fina misturada a resíduos
decorrentes de matéria vegetal decomposta
durante o período de secagem da poça,
formando esta mistura um solo lamacento de textura
leve; o PH é ligeiramente alcalino no início
do período de cheia, devido à quantidade
de material calcário (resíduos de
conchas) existente no solo, passando a ácido
no decorrer do período, sendo esta transformação
motivada pela decomposição vegetal
acima citada. Devido a aproximação
com o mar, a água desses biótopos
apresenta um pequeno teor de salinidade em seu conteúdo,
e sua vegetação é bastante
pobre, encontrando-se em seu interior Eleocharis
e Nympheas, e nas suas margens a mesma vegetação
encontrada nas dunas. Estas características
se enquadram perfeitamente no biótopo de
Cynolébias citrinipinis, localizado em Maricá.
Os biótopos caracterizados como de floresta,
podem ser localizados em áreas de mata Atlântica
preservadas em estado original, e são ambientes
propícios a existência de Cynolébias
sandrii, porém não fáceis de
serem encontrados, devido á degradação
que sofreu e ainda vem sofrendo este tipo de floresta
em nosso país. Dos biótopos de Cynolébias
existentes em nosso estado, considero este o mais
vulnerável de todos, não só
por encontrar-se em um ambiente tão ameaçado
como principalmente por sua constituição.
Os biótopos formam-se junto a base das florestas,
isto é, na parte baixa que circunda as montanhas
cobertas pelas mesmas. O substrato é formado
por terra vegetal, proveniente de decomposição
de raízes, folhas e outros resíduos
da floresta, e coberto por folhas que caem das árvores.
A água tem cor escura e pH ácido,
além de temperatura amena, sendo o grau de
umidade do ar alto, e mesmo no período de
secagem do biótopo, seu substrato mantém
alto grau de umidade, ao contrário dos demais
biótopos de Cynolébias conhecidos.
Estes fatores tornam o biotopo suscetível
a acidentes, bem como pode ocorrer período
de cheia sem que exista eclosão dos ovos
enterrados no substrato, proveniente de períodos
de cheia anteriores. Esta quantidade de fatores
inconstantes, me deixa apreensivo com relação
à existência atual de Cynolebias sandrii,
pois como já tivemos oportunidade de comentar,
estes biotopos que são em pequeno número
e localizados em área restrita, foram palco
de coletas indiscriminadas e irresponsáveis,
e sabe Deus se a generosa Mãe Natureza poderá
recuperar estes santuários, nos premiando
com a oportunidade de podermos novamente observar
tão belo peixe.
As pesquisas em biótopos de Cynolebias devem
ser efetuados com planejamento, pois não
se pode precisar a época exata em que encontraremos
uma população de Killifishes anual.
Entretanto o período mais propício
ao encontro de populações ativas é
a Primavera, dependendo da quantidade de chuva dentro
do período. A primavera de 1992, foi a melhor
dos últimos anos, pois com a grande quantidade
de chuva, ocorrida no período, todos os biotopos
conhecidos produziram populações;
também foi possível a descoberta de
novos biótopos e consequentemente novas populações.
É importante saber que o pesquisador deverá
ser uma pessoa paciente e persistente, pois é
normal encontrarmos biótopos com características
positivas, isto é, totalmente cheio, com
a água de coloração escura
e pH em torno de 6.5 (água velha), vegetação
bem desenvolvida, principalmente no seu interior,
existência de uma grande variedade de vida
aquática, como anfíbios, batráquios
e insetos aquáticos como ninfas de (libélula),
percevejos aquáticos (belostomídeos),
larvas de besouros aquáticos (disticídeos)
e grande quantidade de ostracódios, dáfnias,
ciclopes, entre outros, sem apresentar qualquer
vestígio de Killifishes. Porém é
necessário que se proceda as anotações
relativas a localização e características
da poça, como: profundidade, temperatura
da água (na superfície e no fundo),
pH, DH, coloração da água,
temperatura do ar, data e hora da coleta dos dados,
e se existir habitantes próximos, levantar
a data da ultima chuva ocorrida na área.
Estes dados deverão constituir um mapa de
controle, que receberá novos dados nas próximas
visitas ao biótopo, que aconselho sejam feitas
a espaço de 15 dias, e se possível
periodicamente até a secagem do biótopo.
Mesmo que após este acompanhamento, não
seja encontrada uma população ativa,
não quer dizer que a mesma não exista,
pois pode ocorrer um ciclo completo de vida (cheia,
evaporação e secagem) sem que aconteça
a eclosão dos ovos existentes em seu substrato
(exemplo: Cynolebias sandrii). É também
importante que exista um conhecimento preliminar
com relação ao tipo e localização
(região) dos biótopos, bem como a
configuração de cada espécie,
para que possa identificar a população
que for localizada. Estas são as características
básicas a serem conhecidas por um pesquisador
de campo.
Francisco
Moutinho - piscicultor - Rio de Janeiro/RJ
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