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Macho de marisco 'rouba' óvulo e consegue ter filhos sozinho
Americanos desvendam mecanismo por trás da androgênese, a 'reprodução sem mãe' Molusco usa técnica para se aproveitar também dos óvulos de outras espécies.

Para os mariscos do gênero Corbicula, ser uma das espécies invasoras mais chatas do planeta e infestar rios de norte a sul das Américas aparentemente não basta. Pesquisadores americanos descobriram que o molusco também usa o truque sujo de “roubar” óvulos de outras espécies e fazer com que eles carreguem apenas o material genético de seus espermatozóides. A façanha faz com que os bichos resultantes tenham só pai e nenhuma mãe, caso raríssimo no reino animal.

Provas moleculares contundentes da artimanha dos moluscos foram levantadas por Shannon Hedtke, doutoranda da Universidade do Texas em Austin. Hedtke e seus colegas publicaram novos dados sobre duas espécies do bicho, a Corbicula leana e a Corbicula fluminea, na revista científica “Evolution”. Análises genéticas detalhadas dos bichos, popularmente conhecidos como berbigões, mostram que eles não só expulsam totalmente o DNA de outras espécies como também, ocasionalmente, misturam seus genes com os delas.

Androgênese (em grego, algo como “geração masculina”) é o nome que os cientistas deram à forma de reprodução na qual apenas o DNA do pai é passado adiante. Acredita-se que ela seja rara perto de outras formas aparentemente exóticas de fazer bebês, como a que envolve apenas fêmeas cujos óvulos se transformam espontaneamente em filhotes.

“A androgênese pode ser mais comum do que achamos porque ela é difícil de detectar. Ela tem a mesma 'cara' do sexo normal, porque envolve machos e fêmeas, espermatozóides e óvulos, e só se revela como uma reprodução clonal de machos depois que estudamos os cromossomos ou os genes dos filhotes”, explicou Shannon Hedtke ao G1.

De acordo com a pesquisadora americana, o processo começa como uma fecundação normal. Para quem dormiu nas aulas de biologia, é bom lembrar que todos herdamos uma cópia do nosso DNA do pai e a outra, da mãe. Essas bibliotecas genéticas estão organizadas em pares de cromossomos, estruturas enoveladas no núcleo das células. Para o processo dar certo, os espermatozóides e óvulos precisam diminuir sua quantidade de DNA e ficar com uma cópia só do material genético.

Ora, entre algumas espécies de Corbicula, os espermatozóides continuam com dois pares de cromossomos (e dois flagelos, os “rabinhos” dessas células, ainda por cima). Pior ainda: ao penetrar nos óvulos, eles expulsam todo o DNA da fêmea, inclusive a cópia única do material genético que “deveria” ficar.

Idéia de jerico?

Em tese, essa maluquice reprodutiva seria uma daquelas idéias aparentemente boas que se revelam uma imbecilidade no longo prazo. Isso porque, se os machos forem com muita sede ao pote e só realizarem androgênese, em pouco tempo não haverá mais fêmeas na população. Sem fêmeas, nada de óvulos. E voilà – a espécie acaba de se autoextinguir. “No entanto, ainda não observamos isso na natureza”, diz Hedtke.

Tanto a C. leana quanto a C. fluminea são “oficialmente” hermafroditas, ou seja, produzem tanto óvulos quanto espermatozóides. Isso funcionaria como um seguro contra a autodestruição mas, a longo prazo, produzir só células masculinas acabaria valendo mais a pena e o desequilíbrio acabaria se instalando. Hedtke e companhia queriam verificar se os bichos tinham outro seguro de vida, por assim dizer.

E as análises genéticas conduzidas pela equipe mostraram exatamente isso. Eles obtiveram amostras de DNA de populações do mundo inteiro, e verificaram algumas coisas interessantes. A primeira é que, em vários casos, o DNA “principal”, ou seja, o dos cromossomos, pertencia ao uma espécie, enquanto o material genético das mitocôndrias, as usinas de energia das células, vinha de uma outra espécie.

Mistureba

Ora, isso indica o furto de óvulos de um tipo de berbigão pelo outro, porque durante a fecundação normal são as mitocôndrias da mãe que acabam sendo passadas aos filhotes. De quebra, um pedaço de DNA do núcleo apresenta uma variabilidade de indivíduo para indíviduo que sugere a “sobra” de material genético da vítima durante a androgênese – evento raro, mas que parece acontecer.

Para os pesquisadores, isso indica que as criaturas conseguem escapar da ocasional escassez de óvulos se aproveitando de espécies aparentadas. Melhor ainda, ao capturar genes alheios, seriam capazes de evitar os efeitos ruins da autoclonagem constante. É que, sem DNA “novo”, os seres vivos tendem a sofrer alterações genéticas nocivas ao longo das gerações.

Segundo Hedtke, a roubalheira de óvulos sugere que a androgênese, uma característica normalmente rara, teria aparecido uma só vez entre os Corbicula. Em vez de evoluir independentemente nas duas espécies, ela teria espalhado a si mesma por meio de furtos ocasionais de células de uma espécie pela outra.

Problema no Brasil

Segundo o biólogo Wagner Eustáquio Paiva Avelar, da USP de Ribeirão Preto, uma das espécies do bicho, o C. fluminea, atrapalha um bocado a fauna de moluscos do Brasil. Originária da Ásia, a espécie aportou por aqui nos anos 1970. "Conseguiu subir os rios da bacia do Paraná, do Pantanal e o rio São Francisco", conta ele. Até hoje não foram encontradas evidências de androgênese entre os bichos no Brasil.

"Ele consegue desovar duas vezes a cada quinze dias e tem poucos predadores naturais, por isso ganhou uma superpopulação nos nossos rios", diz Avelar. Para se ter uma idéia, alguns rios do interior de São Paulo chegam a ter 6.000 indivíduos da espécie por metro quadrado. Ainda não foram descobertas maneiras de combatê-lo.

FONTE: O Globo



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