Existe Cachorro Racista?
Claudia
Pizzolatto
Treinadora e Especialista
Desde que eu era menina
sempre ouvi dizer que existem determinados cães,
e em especial determinadas raças de cães,
que são racistas. Naquela época
eu nunca me questionei a este respeito e eu mesma
fui dona de um Pastor Alemão que, embora
não pudesse ser chamado de "racista"
pois sempre aceitou pessoas brancas, pretas, japonesas
ou de qualquer raça, poderia ser chamado
de "preconceituoso". Este cão
tinha verdadeira aversão (e agressividade)
com relação a mendigos e bêbados,
bem como por bando de crianças barulhentas
e sem camisa.
Mas
será que existem mesmo cães racistas
e cães que detestam determinado grupo de
pessoas?
A
verdade é que esta atitude agressiva não
é reflexo de preconceitos como nós
humanos entendemos. Mesmo que alguns cães
pareçam ser mais agressivos e desconfiados
com determinados grupos de pessoas, cães
não gostam ou deixam de gostar mais ou
menos de uma pessoa, seja ela negra, branca ou
oriental, por causa de conceitos prévios
a respeito de uma possível correlação
entre a cor da pele e comportamento "padrão"
tal como muitos humanos fazem.
Se
um cão discrimina determinado grupo de
pessoas é porque uma das três razões
abaixo fizeram parte do seu desenvolvimento quando
filhote:
1-
Ele nunca teve contato ou até mesmo viu
uma pessoas com estas características físicas.
Se
um cão for criado apenas numa comunidade
negra ele (o cão) provavelmente irá
estranhar, podendo até demonstrar sinais
de agressividade contra brancos. Da mesma forma
cães que nunca tiveram contato com crianças,
pessoas obesas ou que se utilizem de cadeira de
rodas irão estranhar estes grupos.
2-
O dono transmite insegurança ou desaprovação
com relação a determinados tipos
de pessoas.
Embora
este sentimento possa ser involuntário
e extremamente discreto o cão percebe e
reage tentando compensar a insegurança
do dono. Este era exatamente o caso do meu Pastor
Alemão.
Meu
cachorro era dotado de muita sensibilidade e instinto
de guarda. Hoje, analisando minha relação
com ele, percebo que todas as vezes que eu avistava
um mendigo ou um bêbado (na época
eu devia ter um 15 anos e morria de medo de ser
abordada por estas pessoas) eu retesava a coleira,
puxando o cachorro ainda mais para perto de mim.
Não foram necessárias muitas repetições
deste movimento para que o cão percebesse
o meu desconforto e passasse a dar o aviso aos
transeuntes, que se enquadravam neste padrão,
para que não se aproximassem. Neste caso
o cheiro (bebida alcóolica ou da falta
de higiene corporal) eram a dica para que ele
começasse a latir ameaçadoramente.
Da mesma forma, na região em que eu morava,
era comum que bando de meninos voltando da praia
atacassem pessoas para realizar pequenos furtos
ou apenas para ameaça-las e dar boa risada
da cara de pavor do pobre coitado. Mais uma vez,
toda vez que eu avista um destes bandos eu puxava
o cachorro para junto de mim .
E
mais uma vez Tiquinho (este era o nome do cão)
vinha em meu socorro.
Nestes
casos eu imagino que além do cheiro de
praia, a algazarra dos meninos, e a maneira que
eles andavam pela rua (tentado cobrir um raio
suficiente para cercar as pessoas) deflagrava
os instintos do meu bicho. Claro que eu não
sabia o que eu estava fazendo. Eu não estava
tentando ensinar ao meu cachorro a me proteger,
mas sempre eu o recompensava, já que me
sentia aliviada com a distancia que estas pessoas
mantinham de nós. Aliás, era uma
dupla recompensa: Uma quando eu acabava acariciando
o cão, e outra através das pessoas
que se afastavam. Eu e elas estávamos mostrando
ao Tiquinho que ele estava fazendo um belíssimo
trabalho e que deveria continuar se aperfeiçoando.
Em
poucos meses não era preciso mais que eu
visse as pessoas "indesejadas" se aproximando,
nem que eu puxasse a coleira do Tiquinho. Não
subestimem os sentidos de um cão (olfato,
visão e audição principalmente).
Bastava estas pessoas estarem a centenas de metros
de nós e Tiquinho logo se arrepiava e se
colocava em posição de defesa (Graças
a Deus, nunca de ataque).
3-
Determinados grupos de pessoas estimulam o comportamento
desconfiado do cão.
As
pessoas que tem medo de cachorro acabam dando
o sinal de que alguma coisa está errada,
mesmo quando o dono e o cão estão
tranqüilos.
Foi
exatamente isso que aconteceu outro dia quando
eu estava treinando um Rottiweiler de 1 ano e
2 meses.
É
bastante comum que quando saio para treinar cães
grandes como o Rott as pessoas evitem de passar
muito perto de nós. Mas num dia em especial
eu vinha caminhando calmamente com este belíssimo
exemplar da raça, com a coleira totalmente
frouxa, já que o cão é totalmente
confiável e está quase pronto para
andar sem guia, quando dois jovens negros começaram
a andar em direção contrária
a nossa.
Lá
de longe eu já havia percebido que os dois
vinham se cutucando e se empurrando e, tal como
eu, o cachorro também percebeu.
Desta
vez tenho certeza de que não mandei nenhum
sinal para o Thor. Eu estava absolutamente calma
e de espírito desarmado. Também
não poderia enviar nenhum sinal pela guia,
já que a mesma estava passando por trás
do meu pescoço antes de chegar ao cão
(justamente com o propósito de eliminar
o vício de corrigir o cão quando
estamos preparando o animal para andar fora da
guia).
Na
medida quem que os rapazes se aproximavam de nós,
eles mais se cutucavam e se empurravam, com um
tentando manter o outro próximo da rota
do cachorro, enquanto que o que era empurrado
tentava escapar.
A
título de verificar o temperamento do Thor,
resolvi manter o meu passo e não interferir
na tensão da guia. Quando estávamos
quase cruzando com os rapazes o Thor começou
a rosnar muito baixinho. Era quase inaudível,
na verdade eu podia mais sentir a vibração
do corpo dele junto a minha perna do que propriamente
ouvir o rosnado dele. Imediatamente reforcei o
comando para que ele se mantivesse junto a mim
e não toquei na guia. Quando os rapazes
estavam paralelos a nós o Thor finalmente
colocou os dentes para fora e começou a
latir, virando a cabeça para acompanhar
os dois rapazes (que nesta hora aceleraram o passo
e pararam de se cutucar), porém sem nunca
se afastar do meu lado..
Comentário
do rapaz que estava sendo empurrado para o amigo
que ria histérica e nervosamente. "Viu
seu Mané, não falei que estes cachorros
não gostam de pretos?!".
Me
controlando para não rir do comentário
que foi dito num misto de pavor e aborrecimento
dignos de comédia, parei, coloquei o Thor
na posição deitada e expliquei para
os dois que o cachorro não tinha nada contra
a cor da pele deles. Que apenas tinha reagido
à forma que os dois se aproximaram, que
para o cão pareceu diferente, e portanto
suspeita. Resposta dos dois: A senhora pode
falar o que quiser dona, mas eu é que não
chego perto destes cachorros, eles não
gostam de pretos e tá acabado!".
Tenho
certeza que se esta experiência fosse repetida
mais uma dúzia de vezes, e sempre com pessoas
de pele escura, o Thor iria começar a ter
uma atitude suspeita contra todos os negros, já
que ele é criado por uma família
branca e não costuma sair muito às
ruas.
Bom,
a esta altura você pode estar se perguntando:
"E se alguém não gosta de judeus?
É possível tornar um cachorro anti-semita?"
(Se você não se perguntou isso não
tem importância, estou só querendo
aproveitar para esclarecer a dúvida de
um aluno meu). : -)
Teoricamente
não, já que não existe nenhuma
característica aparente e comum a todos
os judeus que o dono ou seu cão pudessem
usar como forma de identificação.
A não ser que a pessoa morasse num lugar
onde houvesse uma comunidade ortodoxa. Aí
sim, talvez, quem sabe, os cães pudessem
estabelecer uma relação com as roupas
escuras, os chapéus e as barbas longas
que a maioria dos homens desta religião
usam. Mas veja bem: Qualquer pessoa que estivesse
trajando o mesmo tipo de roupa, e com as mesmas
características físicas, estaria
sujeita ao comportamento anti-social do cão.
E
afinal de contas, qual é a vantagem de
estimular o comportamento anti-social de um cão
baseado apenas na aparência das pessoas?
Melhor mesmo é manter os cães longe
deste comportamento horroroso que alguns humanos
desenvolvem.
Mais
uma notinha: Este comportamento não é
exclusividade de cachorros grandes. Até
um poodle pode reagir da mesma maneira, mas as
raças desenvolvidas geneticamente com o
propósito de guarda são mais sensíveis
e mais reativas do que raças de caça
ou de companhia. Além disso as pessoas
tendem a mostrar mais medo de cachorro grande
justamente porque certas raças já
possuem a fama de racistas.
Claudia
Pizzolatto
Treinadora e Especialista em Comportamento
Canino
Lord
Cão - Treinamento de Cães
Ltda.
Este
artigo foi publicado, originalmente, no site
do Lord Cão e, gentilmente cedido pela
autora.
|