Luigi
Leonardo Mazzucco Albano
Dependendo
da região do mundo em que estamos, temos duas reações
típicas frente às serpentes: adoração ou ódio.
A adoração vem, na maioria das vezes, acompanhada por explicações
religiosas. O ódio também vem acompanhado, mas pela falta de
informação frente a estes seres.
A imagem que carregamos das cobras é de que são seres perigosos,
que só oferecem risco aos seres humanos, e que devem ser mortas. Não
é bem assim.
Para começarmos, vamos diferenciar os termos mais comumente utilizados
por todos: cobra e serpente. Ambos os termos são aceitos pelo dicionário,
mas o termo serpente é o mais correto. O termo "cobra" é
utilizado apenas para um tipo de serpente, as Najas da África e Ásia.
Da mesma forma que os portugueses, na época do "descobrimento",
atribuíram o nome de "índios" aos nativos aqui encontrados,
pois acreditavam ter chegado à Índia, também atribuíram
o nome de "cobra" às serpentes, acreditando se tratar das
verdadeiras cobras (Naja da Índia). Aqui no Brasil não é
errado utilizar o termo "cobra", porém, no resto do mundo,
é recomendável utilizar o termo "serpente", para evitar
qualquer desentendimento.
Classificação geral das serpentes
As serpentes estão
assim classificadas:
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Reptilia
Ordem: Squamata
Subordem: Ophidia
Família: várias
Gênero: vários
Espécie: várias
Dentre as principais famílias, podemos citar:
Biologia geral dos répteis
Vamos
dar uma estudada nas características gerais dos répteis para
podermos, mais adiante, nos determos especificamente nas serpentes.
Os répteis (lat. reptum, rastejar) incluem as cobras, lagartos, tartarugas,
jabutis e tuataras.
O corpo é coberto com pele seca e cornificada, ou seja, com formação
de um extrato córneo, duro, resistente, geralmente com escamas ou escudos,
e poucas glândulas superficiais. Com exceção de cobras
e lagartos ápodos (sem patas), possuem quatro membros, cada um com
5 dedos, adaptados em cada espécie para um determinado hábitat.
O esqueleto é completamente ossificado. Respiram por pulmões,
sendo que algumas tartarugas têm respiração faríngea
e/ou cloacal. São ectotérmicos, ou seja, a temperatura de seu
corpo é variável. A fecundação é interna,
e podem ser ovíparos ou vivíparos.
Os répteis foram o primeiro grupo de vertebrados a se adaptar à
vida em lugares secos e no ambiente terrestre, pois sua pele oferece maior
resistência à perda de água para o meio e seus ovos também
estão mais protegidos contra a desidratação (casca mais
grossa e resistente), dentre vários outros motivos.
As serpentes
Sorrateiramente, a formidável
jibóia de 20 metros desliza entre os galhos de uma árvore e,
de repente, sem dar à indefesa vítima oportunidade alguma de
reação, salta sobre o homem e o devora de uma só vez.
Histórias como essa povoam os relatos de alguns dos exploradores que,
no século passado, internaram-se na selva amazônica buscando
desvendar os mistérios da flora e da fauna da região. Houve
até um deles, um missionário europeu, que, iludido por uma observação
feita a grande distância, jurou ter visto uma jibóia com nada
menos que 50 metros!
Hoje se sabe que as maiores serpentes raramente ultrapassam 10 metros (registros
oficiais) e que há pouquíssimos registros de ataques a seres
humanos. E sabe-se muito mais sobre os hábitos dos milhares de espécimes
de ofídios espalhados por praticamente todo o Planeta. Contudo, a imaginação
popular continua envolvendo as serpentes num manto de fantasias: maldosas,
astutas, traiçoeiras, elas seriam inimigas naturais do ser humano.
Enfim, uma autêntica praga que precisa ser eliminada da face da Terra.
Grave engano. Ao matá-las indiscriminadamente, o homem contribui para
alterar importante elo na cadeia ecológica, como veremos adiante.
Perda das extremidades pares e alongamento do corpo ocorreu, como um desenvolvimento
paralelo, em diversos grupos de vertebrados, incluindo as enguias e moréias
entre os peixes, as cobras-cegas entre os anfíbios, os Amphisbænidæ
entre outros lagartos, além de todas as cobras.
O corpo das serpentes é coberto por escamas, sendo que em algumas,
há na parte inferior do corpo uma grande fileira de escamas grandes,
chamadas placas transversais.
A língua é estreita, flexível, semelhante a uma fita,
com extremidade bífida, que serve para captar "cheiros" diversos.
A língua oscila no ambiente e capta vários feromônios.
Quando ela é retraída, suas pontas entram
em
duas pequenas cavidades no palato ("céu da boca"), chamadas
de "órgão de Jacobson", onde, neste órgão,
há terminações nervosas que decodificam esses feromônios.
Todos os órgãos são tubulares, compridos, acompanhando
a geometria do corpo. Somente o pulmão direito é funcional.
Em serpentes longas existem de 200 a 400 vértebras. Há uma complexa
ligação entre músculos, vértebras, costelas, e
pele, arranjo este que tornam possíveis os graciosos movimentos sinuosos
de uma serpente.
Há quatro tipos de movimentos nas serpentes: 1 - locomoção
ondulatória horizontal: locomoção característica
de serpentes rápidas, caracterizada pela formação de
um S pelo corpo do animal. Há vários pontos de atrito com o
solo, este geralmente irregular; 2 - locomoção retilínea:
característica de serpentes lentas. O atrito de todo o ventre do animal
com o solo é essencial; 3 - locomoção em sanfona: envolve
a extensão e a retração do corpo de um ou mais pontos
de atrito com o solo. Pode ser usada em uma superfície achatada, ao
rastejar através de um túnel ou trepar; 4 - locomoção
por meio de alças laterais: é uma forma de locomoção
encontrada em diversas víboras africanas e do oeste da Ásia
e na cascavel norte americana (Crotalus cerastes). Este tipo de locomoção
é uma adaptação para a movimentação rápida
sobre superfícies lisas sem obstáculos, como areia ou terra
muito dura. Esta locomoção é uma forma modificada da
locomoção ondulatória horizontal. A serpente deixa seu
corpo em forma de S, e alterna os pontos de contato com o solo dois a dois,
impulsionando-se para o lado. A velocidade atingida por estas serpentes é
significativa, principalmente para fugir de predadores.
Venenosa ou peçonhenta?
As pessoas costumam errar
bastante quanto a estes conceitos.
Se considerarmos que a saliva das serpentes é adaptada para dissolver
proteína (carne, por exemplo), podemos considerar que todas as serpentes
são venenosas, isto porque entendemos como veneno uma substância
capaz de fazer mal a algum ser. A saliva das serpentes nos é prejudicial,
por isso as consideramos venenosas para os seres humanos. Mas, qual o limite
de ação do veneno? É aí que entra o conceito de
"peçonhenta": um animal peçonhento é aquele
que possui um veneno com uma concentração muito elevada, capaz
de causar grandes danos a um outro ser, sendo este animal capaz de injetar
este veneno através de dentes ou ferrões, geralmente conhecidos
por peçonhas. Ou seja, aquelas serpentes que possuem dentes inoculadores
de veneno são chamadas peçonhentas. As que não possuem
estes dentes, são chamadas não peçonhentas.
Jibóias, corais falsas, muçuranas, sucuris entre muitas outras
são venenosas: caso uma destas serpentes morda uma pessoa, o máximo
que acontecerá é uma inflamação local e prurido
intenso.
Surucucus, cascavéis, corais verdadeiras, najas etc. são peçonhentas:
caso uma destas serpentes morda uma pessoa, esta tem que ser socorrida, pois
o veneno provocará no organismos diversas reações alérgicas,
por vezes muito graves e até mortais.
Serpentes
que vivem em ilhas tendem a ter o veneno mais concentrado do que as que vivem
no continente.
O veneno nada mais é do que uma especialização da saliva,
onde esta adquire poder proteolítico (que quebra proteínas)
suficiente para desencadear diversas reações nos seres vivos.
Podem adquirir várias especialidades, sendo elas: neurotóxico,
que afeta particularmente os centros respiratórios e a morte sobrevêm
por asfixia, se a vítima não for socorrida a tempo. Naja e corais
verdadeiras são exemplos de portador deste veneno; hemotóxico,
que afeta o aparelho circulatório, podendo ser hemorrágica (provocando
hemorragias) ou hemolíticas (provocando a destruição
dos glóbulos vermelhos). Cascavéis e víboras portam este
tipo de veneno; miotóxica, que afeta sensivelmente a musculatura de
todo o corpo. Algumas cascavéis apresentam este tipo de veneno; coagulante,
onde todo o sangue do organismo começa a coagular. Corais verdadeiras,
algumas cascavéis, surucucus possuem este veneno; proteolítica,
onde há o necrosamento da pele e/ou outros tecidos. Algumas jararacuçus,
jararacas, surucucus são exemplos de portadoras deste veneno.
Diferenciação entre serpentes peçonhentas e não peçonhentas
Em todos os livros didáticos
são apontadas diferenças clássicas entre serpentes peçonhentas
e não peçonhentas. Mas há um pequeno detalhe: todos estes
padrões foram traçados baseando-se nas víboras africanas.
Em se tratando de Brasil, ou mesmo em outros Países, podem haver muitas
exceções.
Tem-se como padrões clássicos (visíveis) para serpentes
peçonhentas: cabeça triangular; cauda terminando abruptamente;
escamas ásperas e sem brilho; olhos com pupila em fenda; fosseta loreal
presente. Para serpentes não peçonhentas: cabeça redonda;
cauda com terminação suave; olhos com pupila redonda; escamas
brilhantes e lisas; sem fosseta loreal.
Muitas dessas características são válidas, mas muitas
não aparecem nos animais. Analisemos pois duas serpentes que apresentam
exceções:
- Coral: a cobra coral verdadeira é pouco diferenciável da falsa
coral. Somente uma pessoa experiente saberá distinguir uma da outra
só batendo o olho. A coral verdadeira tem a cabeça redonda,
olhos com pupila redonda, escamas lisas e brilhantes, não possui fosseta
loreal. O padrão de cor, tão usado como referência, não
pode sê-la, pois há muitas exceções, visto que
muitas falsas corais mimetizam-se com as verdadeiras, buscando proteção
contra predadores (lembremos que as corais verdadeiras possuem coloração
apossemática, ou seja, uma combinação de cores que alertam
os predadores sobre o perigo daquele animal. A falsa coral, em conseqüência
do mimetismo, acaba tendo uma coloração pseudo-apossemática).
- Jibóia: a jibóia é uma serpente não peçonhenta,
apesar de possuir cabeça triangular, olhos com pupilas em forma de
fenda, escamas relativamente opacas, cauda com terminação abrupta.
Vemos, então, que devemos ter cautela ao nos basearmos nesses padrões
"clássicos".
O crânio das serpentes e seus órgãos mais significativos
As serpentes possuem um crânio bem articulável, onde os ossos, em sua maioria, são independentes e interligados por músculos. Esta característica faz com que consigam se alimentar de presas com diâmetro maior que seu corpo: os ossos do crânio adquirem uma anatomia que permite à serpente engolir presas grandes, e seus órgãos internos, assim como sua pele, possuem boa flexibilidade. Os dentes são voltados para trás, o que permite à serpente segurar sua presa enquanto engole. As serpentes nunca mastigam ou dilaceram seu alimento, sempre engolindo-o inteiro.
Dentição
Existem quatro tipos de dentição nas serpentes, a saber:
. áglifa (a = ausência + glyphé = sulco) - dentição típica de serpentes não peçonhentas: não possuem presas. Seus dentes são maciços, sem canal central ou sulco externo. Jaracuçu-do-brejo, caninana, jibóia, sucuri, pítons etc. são exemplos de serpentes áglifas.
. opistóglifas (opisthos = atrás) - apresentam um ou dois pares de dentes posteriores do maxilar superior diferenciados, com sulco externo por onde escorre o veneno. Pela posição posterior das presas, raramente causam acidentes, sendo que podemos considerar estas serpentes como não peçonhentas, pois acidentes com elas são raríssimos. Falsas corais e muçuranas são exemplos.
. proteróglifas (protero = dianteiro) - possuem presas anteriores sulcadas, em maxilares imóveis, o que lhes permite inocular o veneno. A coral verdadeira, serpentes marinhas, najas, são exemplos de serpente com esta dentição.
. solenóglifas
(soleno = canal) - possuem presas anteriores dotadas de um canal central
por onde passa o veneno, estando em um maxilar bem móvel. Cascavel,
jararaca, urutu e surucucu são exemplos de serpentes solenóglifas.
As serpentes áglifas, opistóglifas e proteróglifas mordem suas presas; as solenóglifas picam. Melhor explicando: as serpentes áglifas e proteróglifas tem como único método de matar suas presas a asfixia. Elas mordem e se enrolam, praticamente com o corpo todo, na presa. Quando esta morre, a serpente começa a engolir, sempre pela cabeça. As serpentes solenóglifas dão um bote certeiro na presa, inoculam o veneno e esperam que esta morra; mesmo que a "vítima" conseguir se locomover, a serpente a localiza com auxílio de suas "fossetas loreais". Ao localizarem a presa, começam a engoli-la, também pela cabeça.
As "fossetas loreais"
As serpentes pertencentes à subfamília Crotalinae possuem em ambos os lados da cabeça, entre as narinas e os olhos, duas depressões em forma de fossa, denominadas fosseta loreal. Este órgão tem comunicação com o cérebro e sua principal função é a detecção de calor. As serpentes que possuem este órgão são portadoras de dentição solenóglifa, portanto picam sua presa. Em poucos minutos esta presa está morta, e a serpente começa a rastreá-la, então, pelo calor que seu corpo emana. Uma serpente consegue rastrear um camundongo a vários metros de distância, tamanha a especialização das fossetas loreais.
Audição
As serpentes não possuem ouvido externo, tímpano e cavidade do ouvido médio, mas a columela, que transmite os sons, está presente e se estende até um ouvido interno. A audição torna-se, então, muito rudimentar (capta de 100Hz a 170Hz) e não significativa. Mas são capazes de perceber, eficazmente, as vibrações do solo, fugindo do caminho de um animal muito antes que ele chegue aonde a serpente se encontra.
O processo de muda
Processo crítico na vida das serpentes, toda a camada córnea do tegumento (pele) é renovada, surgindo uma pele nova, lisa, brilhante, bem colorida. A muda sai como uma tripa virada do avesso. Há desbotamento na coloração e turvação córnea dificultando, mais ainda, para a serpente vislumbrar a presa. A muda, quando o animal está em perfeito estado de saúde, inicia-se pela cabeça, seguindo-se o corpo todo com rugas e pregas e a serpente precisa ir à procura de um toco, pedra etc. para se esfregar até que a pele velha se desprenda totalmente. Durante o período de muda a serpente não se alimenta e prefere ficar quase imóvel; após a muda ela volta à atividade. Os fatores que facilitam ou não as mudas prendem-se à alimentação, clima, excitação, cuidados higiênicos em cativeiro etc.. o recomendável é que não se manipule o animal durante o processo de muda, e que se mantenha o terrário úmido (pode umedecer o terrário com os borrifadores de planta), podendo, inclusive, umedecer o animal uma vez por dia (o que facilita o processo de muda).
Alimentação na Natureza e Ecologia das serpentes
Ao
contrário do que muitos pensam, as serpentes não se alimentam
exclusivamente de mamíferos. Algumas se alimentam de insetos e outros
pequenos invertebrados; serpentes de maior tamanho alimentam-se com peixes
ou mamíferos; algumas, como a muçurana (não peçonhenta),
alimentam-se de outras serpentes peçonhentas; por outro lado, corais
verdadeiras podem se alimentar de falsas corais. Muitas serpentes alimentam-se
de moluscos.
As serpentes ocupam um lugar importante na teia alimentar de cada ecossistema.
Aquelas que vivem, por exemplo, nos desertos dos Estados Unidos, são
úteis pois se alimentam de roedores, impedindo uma possível
explosão populacional destes. No Brasil, podemos dar destaque à
muçurana, que se alimenta exclusivamente de serpentes peçonhentas.
Como as serpentes não são o alvo favorito de estudo da maioria
das pessoas, muitas vezes esse animal é morto sem a menor necessidade.
As pessoas que moram em campos, fazendas, sítios etc., quando não
conhecem o animal, tem logo o costume de matá-lo, mesmo que este não
esteja perto da residência e/ou oferecendo risco à alguma pessoa.
A recomendação que se faz, portanto, é que a pessoa procure
se informar quais os animais e vegetais que residem naquele lugar, e se informar
quais animais são peçonhentos. Conhecendo-os bem, com certeza
a residência estará protegida e o animal seguro. Por quê?
Simplesmente porque o animal que não for peçonhento não
será morto, e caso algum seja encontrado dentro ou nas proximidades
da residência, simplesmente uma pessoa com experiência removê-lo-á
para o meio da mata; se for um animal peçonhento e estiver nas proximidades
da residência, chama-se o Corpo de Bombeiros para realizar a remoção
do animal; caso aquele seja inacessível, basta recorrer também
a uma pessoa experiente, que esteja devidamente protegida (botas altas e grossas,
luvas e laço). Caso o animal se encontre dentro da residência
e este for peçonhento, recomenda-se então, caso não tenha
outro jeito, o abate.
Reconhecer a vegetação do lugar também é importante,
por dois motivos: para não consumirmos um vegetal venenoso; e para
sabermos se aquele tipo de vegetação costuma ser abrigo de determinada
espécie de serpente.
Não só as serpente, mas todos os animais, inclusive o homem,
e todos os vegetais, fazem parte de uma grande e complexa teia alimentar,
onde a falta de um certamente causará a superpopulação
de outro, que por sua vez causará a diminuição de outra
espécie... desequilibrando todas as cadeias e, conseqüentemente,
a teia. Um exemplo bem simples: considere a seguinte cadeia alimentar:

Analisemos a primeira
cadeia: se o número de serpentes tiver uma significativa diminuição,
o número de águias também irá diminuir, pois ficará
sem alimento; em contrapartida, o número de aves aumentará,
pois não terá serpentes suficientes para manter um número
equilibrado de aves. Por outro lado, diminuirá drasticamente o número
de gafanhotos, pois mais aves estarão se alimentando deles, tendo como
última conseqüência um aumento exacerbado da vegetação.
Analise você a segunda cadeia e trace as conseqüências obtidas
com a diminuição do número de serpentes.
Moral da história: RESPEITE a Natureza: tudo o que ela pede é
que a deixemos realizar suas tarefas para que mantenha um equilíbrio
saudável para que possamos viver e conviver em harmonia. Claro que
se você tiver correndo risco é preferível abater o animal,
mas só neste caso. Do contrário, deixe-o na Natureza para que
cumpra seu papel.
Serpentes como animais de estimação
Muitas
pessoas estão aderindo à moda de ter em casa "pets"
diferentes, "exóticos": iguanas, ferrets, aranhas... serpentes.
Uma coisa deve ficar bem clara: serpentes não são parecidas
com gatos ou cachorros, que podemos colocar coleira para passear e que vão
ficar pedindo colo toda hora. Répteis não possuem uma demonstração
expressiva de afeto pelo dono; o que fazem é respeitá-lo, pois
sabem que é ele que fornece alimento, e sabem que não lhes farão
mal, deixando-se manipular.
Não podemos ensinar para uma serpente o que fazemos com um cão:
podemos ensinar ao cão que não deve rosnar para o dono caso
este retire sua ração enquanto aquele estiver comendo. Com a
serpente não dá: quando a alimentamos, qualquer coisa que se
movimente perto dela é presa em potencial, e ela atacará.
Quando a serpente estiver muito agitada, convém não manipulá-la,
pois corremos o risco de levar uma mordida... e ela não vai saber que
fez coisa errada.
Enfim, estes animais são mais de exposição: devem estar
num terrário bonito, vistoso, onde o animal complete a beleza do terrário.
Sua manipulação deve ser a mínima necessária.
Com o tempo, a serpente vai se habituando ao dono, e sua manipulação
poderá ser gradativamente aumentada.
As serpentes mais comuns de seres adotadas como "pets" no Brasil
são as pítons, as jibóias e as falsas corais (lembremos
que, atualmente, o IBAMA proíbe a comercialização tanto
de serpentes silvestres como de exóticas), por possuírem um
bom caráter, serem calmas e de grande beleza.
Ao contrário do que muitos pensam, as serpentes alcançam uma
vida relativamente longa. A jibóia, por exemplo, pode chegar a 24 anos,
se bem cuidada. Portanto, pense bem antes de escolher este animal como "pet",
pois ele conviverá muitos anos com você.
O terrário
Montar um terrário
para uma serpente não é tarefa difícil, mas dispendiosa:
são animais sensíveis e que exigem certas condições
ambientais para que se mantenham saudáveis.
São necessários os seguintes materiais:
· cuba de vidro
· tampa adequada para terrário
· lâmpada adequada para serpentes
· substrato
· bebedouro
· materiais para decoração
· fonte de aquecimento
Cuba de vidro
As maneiras e materiais
para a confecção de um terrário variam muito. Dá-se
a seguir um modelo bem simples, que pode ser deixado em uma sala de visitas,
para exposição, por exemplo.
O terrário mais prático é aquele feito em uma cuba de
vidro, idêntica àquelas usadas na montagem de aquários.
É importante que consideremos o tamanho do animal quando adulto, para
que não precisemos trocar periodicamente um terrário.
Para duas falsas corais, por exemplo, um terrário com 100 x 40 x 50
está de bom tamanho.
A espessura do vidro do terrário não precisa ser a mesma da
recomendada para aquários: como não terá que suportar
grandes pressões, podemos confeccionar a cuba com vidros cerca de 20%
mais finos. Também não é necessária a trava, caso
a cuba seja até médio porte (como o tamanho citado acima).
Tampa adequada para terrário
Temos várias possibilidades neste quisito. Mas uma coisa é importante: a cuba deve estar muito bem tampada, pois muitas serpentes conseguem escalar pelo silicone que unem os vidros! As frestas precisam estar bem tampadas. Para a iluminação podemos colocar um tampo igual ao utilizado em aquário, mas temos que tomar cuidado para deixarmos uma boa ventilação. Um tampo ideal pode ser um com armação de madeira e tela por cima, e para iluminação, uma calha das usadas em aquarismo: a tela proporciona boa iluminação e ventilação, ao mesmo tempo que a cuba fica bem vedada.
Lâmpada adequada para serpentes
As serpentes não
são répteis que necessitem de uma iluminação muito
exigente. Seria interessante que o terrário se localizasse onde houvesse
uma incidência de raios solares matutinos, até 10h00. Sabemos
que o vidro filtra grande parte dos raios UV-A e UV-B, mas sempre um pouco
acaba passando. Como iluminação artificial, podemos recomendar
uma lâmpada "Reptile day light" fluorescente, que possui todos
os raios UV-A e UV-B necessários aos répteis, mas que custa
caro. A lâmpada gro-lux e as similares, utilizadas em aquarismo, são
mais acessíveis e oferecem traços dos raios UV-A e UV-B, e é
o suficiente.
Substrato
Podemos colocar vários substratos: jornal, areia de construção, cascalho de rio, terra vegetal, sphagnum (espécie de musgo), "litter" (forragens absorventes de cactus ou cascas de árvores reabsorvíveis), carpetes sintéticos (próprios para terrários). Na hora da montagem do terrário é necessário saber que animal se pretende criar, e procurar colocar o substrato mais conveniente para este animal. De um modo geral, o carpete sintético é um bom material. Tira um pouco o "ar natural" do terrário, mas é muito prático e econômico, já que é lavável.
Bebedouro
Precisa ser um recipiente, preferencialmente, de plástico (recipientes de porcelana ou barro podem acumular muitas bactérias), raso e largo. Geralmente os animais defecam na água. Esta precisa ser trocada todo dia.
Materiais de decoração
Troncos naturais ou artificiais, plantas naturais, rochas. A gama de materiais fica por conta da criatividade da pessoa. Só não coloque rochas com arestas cortantes.
Fonte de aquecimento
É essencial que o animal conte com uma fonte de aquecimento. Não é recomendável colocar uma fonte que aqueça o terrário por inteiro, como por exemplo uma lâmpada incandescente. O animal regula sua necessidade de calor e frio, procurando zonas quentes e frias dentro do terrário. O material mais recomendável é uma rocha aquecida, ficando o animal em cima dela quando quiser se aquecer e saindo dela quando já tiver calor suficiente.
Alimentação em cativeiro
Geralmente as serpentes
que são criadas como "pets" são aquelas que se alimentam
de mamíferos. Jibóias, pítons, falsas corais etc. se
alimentam de ratos, preás camundongos.
A alimentação constância na alimentação
vai variando com vários fatores:
- clima: no inverno as serpentes se alimentam menos, mesmo possuindo a fonte
de aquecimento no terrário (elas sentem a época do ano, e além
do mais a temperatura do terrário vai estar mais baixa).
- tamanho: conforme o tamanho do animal, temos duas saídas: ou alimentamos
mais vezes, ou damos mais comida em cada refeição.
- muda: as serpentes dificilmente se alimentam durante a época de muda.
- stress: um animal estressado dificilmente se alimentará.
Para uma falsa coral com
aproximadamente 70cm de comprimento, podemos ministrar dois camundongos a
cada 20 dias, por exemplo, na época fria do ano, e a cada 10 dias,
na época quente.
Para um filhote de jibóia ou píton com 40cm de comprimento,
dois neonatos por semana.
Há no mercado especializado diversos complementos alimentares que podem,
por exemplo, serem borrifados na comida, ou que possamos ministrar ao rato
antes de darmos à serpente. É bom fornecermos estes complementos,
caso a alimentação do roedor seja muito empobrecida.
Temos que conhecer o animal que criamos, saber seus costumes. Um método
fácil de verifica se o animal está com fome: o normal de uma
serpente é ela ficar quieta em um canto do terrário. Quando
ela começa a "passear", é uma evidência que
está procurando comida. É esta a hora de alimentá-la
novamente. Como são animais ectotérmicos, sua fome vai variar
conforme variar a temperatura do ambiente: mais calor, fome mais cedo; mais
frio, mais demora em sentir fome.
Considerações finais
É evidente que
este artigo está por demais singelo frente ao conteúdo que deveria
ter. Mas isto é proposital.
Nossa intenção é que você conheça, pelo
menos, uma ínfima parte do mundo das serpentes. Não é
nossa intenção fazê-lo gostar desses animais, mas pelo
menos conhecê-lo e, com isso, respeitá-lo.
A Herpetologia é um campo muito amplo e que merece ampla discussão.
Frente a isso, dispomo-nos a resolver quaisquer dúvidas e trocarmos
conhecimentos, necessários à perpetuação de toda
a fauna do Planeta.
Luigi
Leonardo Mazzucco Albano
Aquarismo: dulcícula e marinho; comportamento de peixes em cativeiro; Cinofilia
e Gatofilia; agapornis - São Carlos - SP
Bibliografia
- Soerensen, B.; Animais peçonhentos, Livraria Atheneu Editora, 1 990
- Vários autores; Zoo - O fantástico mundo animal, Rio Gráfica
e Editora S?A, 1 982
- Buononato, M. A.; Manutenção de répteis e anfíbios
em cativeiro, apostila própria, s/ data
- Linhares, S.; Gewandsnajder, F.; Biologia Hoje, vol. 2, Ed. Ática,
1 994
- Romer, A. S.; Parsons, T. S.; Anatomia comparada dos vertebrados, Atheneu
Editora São Paulo Ltda, 1 985
- Storer, T. I.; Usinger, R. L.; Stebbins, R. C.; Nybakken, J. W.; Zoologia
Geral, Companhia Editora Nacional, 1 991
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